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Entrevista ao Reitor da UMinho, Rui Vieira de Castro

Rui Vieira de Castro é reitor da UMinho desde 2017. A exercer o seu segundo mandato à frente da Academia minhota, assume um olhar de otimismo relativamente ao futuro.

Reeleito reitor da Universidade do Minho (UMinho) em 2021, Rui Vieira de Castro estará à frente dos destinos da Instituição até 2025. Pelo caminho, nestes mais de 5 anos, teve de lidar com uma crise pandémica, com um subfinanciamento cada vez mais estrangulador do esforço da Universidade, e agora, com uma guerra instalada na Europa que tem gerado impactos económicos e sociais avassaladores para a Universidade e para o país.

UMdicas esteve à conversa com o Professor, que numa longa conversa fez balanços, da sua prestação e da Instituição que lidera, traçou caminhos e projetos, deixou desejos e lançou apelos, deixando sempre patente a relevância do projeto da UMinho. 

  • Decorre o segundo mandato como Reitor da UMinho. Que balanço faz destes 5 anos à frente dos destinos da academia e quais são os principais projetos até final do mandato?

Fazer um balanço de 5 anos de Reitor, naqueles que foram os 5 anos que vivemos, é algo que não pode deixar de ponderar aquilo que foram fatores externos, que condicionaram de forma muito significativa e que tiveram grande impacto no funcionamento da Universidade.

Refiro-me muito particularmente àquilo que foram os dois anos em que o funcionamento da instituição esteve fortemente afetado pela crise pandémica. E agora, mais recente, por efeito do conflito instalado no centro da Europa, há um conjunto de impactos na sociedade e na economia que vieram criar uma circunstância nova e inesperada.

Isto não significa que este quadro de dificuldades tenha impedido a consolidação do projeto da UMinho e da sua capacidade de responder àquilo que são os objetivos que orientam a instituição. A este propósito gostaria de relevar alguns aspetos que me parecem fundamentais, e fá-lo-ia considerando aquilo que são as várias dimensões de atuação da Universidade, ou seja, no domínio da educação, no domínio da investigação e da inovação e no domínio da interação com a sociedade.

Relativamente ao domínio da educação, nestes 5 anos, a UMinho continuou a crescer, de forma significativa, em número de estudantes. Estamos hoje com cerca de 21 000 estudantes, um crescimento de aproximadamente de 2000 alunos face àquilo que era o corpo discente da Universidade há 5 anos. Este crescimento representa, evidentemente, aquilo que a instituição é capaz de oferecer, representa também um significativo grau de adequação daquilo que é a nossa oferta educativa, àquilo que são as expectativas e necessidades das pessoas. Mas representa, também, o quadro daquilo que tem sido a chegada ao ensino superior, que se tornou muito evidente ao longo dos últimos anos, de um maior número de pessoas. Há um crescimento generalizado na procura do ensino superior. Esta capacidade da UMinho responder àquilo que é a procura social tem sempre presente a necessidade de adequação da oferta educativa àquilo que são necessidades da economia e da sociedade, àquilo que são aspirações das pessoas. A UMinho é uma instituição de ensino superior cada vez mais relevante para as pessoas, e isso é visível no aumento da procura de que ela é objeto. Temos clara consciência de que a procura da educação superior e a chegada das pessoas à Universidade é apenas uma condição para a Universidade cumprir a sua missão, porque, de seguida, o que se espera é que a Universidade seja capaz de assegurar que as pessoas que cá chegam, cá permaneçam, obtenham os seus graus em tempo útil, que a sua qualificação seja efetiva e que depois a transição para os mercados de trabalho, seja também bem sucedida.

Nesta perspetiva, e queria também relevar destes 5 anos, na UMinho fomos capazes de desenvolver um conjunto de iniciativas tendentes a acautelar a qualidade dos percursos académicos dos nossos estudantes. São iniciativas de várias naturezas, desenvolvidas em articulação com a Associação Académica, que tem a ver com o acompanhamento dos percursos, tal como a iniciativa que fomos expandindo das Tutorias, as Mentorias, que agora têm uma componente internacional, são excelentes exemplos desta preocupação. Como é também o esforço que tem sido colocado na qualificação pedagógica dos nossos docentes, uma preocupação central na atividade da Universidade, que tem vindo a fazer com que a UMinho venha assumindo, cada vez mais, um papel muito relevante na dinamização de um processo que é visível em Portugal de promoção da capacitação pedagógica dos docentes do ensino superior, e também com expressão no contexto internacional, designadamente no fórum que a Associação Europeia de Universidades tem para trabalhar estas matérias.

Esta preocupação com a qualidade da educação, traduzida num conjunto de iniciativas concretas, é também, do meu ponto de vista, um resultado muito importante da nossa atividade ao longo do tempo.

Olhando ainda para os estudantes, diria ainda que estamos a dar hoje, passos decisivos para uma velha aspiração da Universidade, que era a do alargamento do seu parque de residências universitárias. Este projeto foi iniciado em 2018, no quadro do Plano Nacional de Alojamento de Estudantes do Ensino Superior, que acabou por não ter o efeito esperado, mas que agora, no quadro do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), ganhou de facto um impulso novo. Candidatamos dois projetos principais, uma residência em Braga e outra em Guimarães, com circunstâncias distintas. Em Guimarães o projeto é assumido integralmente pela Universidade, em Braga, o dono da obra é a Câmara Municipal de Braga, embora tenha havido aqui uma intervenção muito significativa da Universidade na conceção do próprio projeto, e as coisas encaminhar-se-ão para que a Universidade venha a assumir a gestão do edifício da Fábrica Confiança.

Gostava ainda de relevar que o Colégio Doutoral é uma estrutura que está, de facto, a contribuir de forma muito significativa para a melhoria da qualidade da educação doutoral na UMinho, respondendo àquilo que ela deve ser em termos de práticas associadas, em termos de integridade e ética académica, práticas relacionadas com os modos de promover a orientação dos estudantes, com a capacitação em dimensões transversais dos próprios estudantes de doutoramento, de preparação para a sua inserção também noutros contextos que não apenas os conselhos científicos, também de construção de referenciais de qualidade. Estamos a falar de um projeto que tem sido de qualidade e que se afirmou de forma significativa na nossa instituição.

Quando olho para o campo da Investigação e da Inovação, diria que os aspetos principais se prendem com a consolidação do corpo de investigadores da Universidade. Temos os nossos estatutos, a nossa legislação, a investigação está adequadamente enquadrada, mas a verdade é que só muito recentemente podemos falar de um verdadeiro corpo de investigadores de carreira da Universidade. Por outro lado, e tendo em conta decisões que foram tomadas pelo Governo, temos uma alteração que é qualitativa e significativa do estatuto dos investigadores, da natureza do contrato que têm com a Universidade. A verdade é que em todo este contexto, a Universidade tem hoje à volta de 380/400 investigadores contratados, muitos deles contratados para desenvolvimento de projetos de investigação e inovação, mas, destes, cerca de 10% são já investigadores de carreira. Esta é de facto uma alteração qualitativa muito importante.

Regressando à avaliação dos 5 anos, o que importa notar, apesar de todas as dificuldades que mencionei, é a enorme vitalidade que a instituição tem. Hoje temos mais de 750 projetos de investigação e desenvolvimento em curso na Universidade, com um orçamento que ultrapassa os 200 milhões de euros. Este número de projetos coloca enormes desafios à nossa máquina administrativa que nem sempre tem tido suficiente capacidade de resposta, como também desafios de outra ordem são colocados por aquilo que é alguma dificuldade das entidades financiadoras em, atempadamente, procederem aos reembolsos da Universidade. Depois, é evidente que essa vitalidade tem expressão naquilo que é a avaliação que é feita do nosso sistema de unidades de investigação, temos cerca de 90% dos nossos investigadores em unidades que estão classificadas como “excelente” ou “muito bom” nas avaliações da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), o número de publicações científicas da UMinho continua a crescer regularmente ao longo dos anos. Tivemos também ocasião de ter uma participação que cresceu significativamente: estamos hoje presentes em 9 laboratórios associados, em 13 laboratórios colaborativos e isto representa o salto daquilo que é a atividade científica da Universidade.

Olhando para o plano das infraestruturas, vamos ter, muito proximamente, a abertura do novo edifício do 3Bs, no AveParque, uma infraestrutura científica de grande qualidade.

Ao nível da Interação com a Sociedade, esta faz-se de muitas maneiras. Uma forma de o fazer são os projetos que desenvolvemos em colaboração com entidades de natureza empresarial, Bosch, Continental, Sonae, são exemplos de entidades com as quais vimos desenvolvendo projetos de grande impacto, que envolvem um elevado número de recursos financeiros, supõem a criação de emprego altamente qualificado, que se traduzem na própria alteração da produção destas empresas, da riqueza que são capazes de criar. Isto é uma marca da Universidade que tem de ser sublinhada. Conseguimos também neste período, reforçar a nossa intervenção no quadro de projetos com estas características.

Mas não se restringe a esta dimensão aquilo que são as formas de interação que temos com a sociedade. Há outros instrumentos, há outras figuras, outros recursos que nós temos e que gostaria de relevar. Entre eles encontram-se, evidentemente, a nossa Rede Casas do Conhecimento, um projeto notável, por aquilo que representa de articulação entre a Universidade e as autarquias da região. As nossas unidades culturais que também elas desenvolvem uma atividade sistemática, seja de preservação, seja de disponibilização e divulgação de património cultural. Neste período fizemos exposições que foram marcantes, a exposição sobre o André Soares ou sobre o Espólio da Diamang, foram marcos nesta nossa atividade de divulgação do património cultural. Vamos colaborando com entidades da nossa envolvente através de outras estruturas específicas, como é o caso da Associação de Psicologia ou do Projeto P5 da Escola de Medicina que, operando na área genérica das ciências da saúde, tem dado contributos importantíssimos no quadro das relações que temos vindo a estabelecer com os municípios. Este tipo de intervenção estruturada, sistemática, significa também a passagem para um outro plano dos nossos modos de relação com os municípios e com as populações, nestes casos concretos, através da prestação de cuidados de saúde, seja numa lógica preventiva, seja numa lógica de intervenção. Ainda nesta relação com os municípios, relevo a vitalidade desta relação, desde logo com as cidades onde estão os campi da UMinho, Braga e Guimarães, foi neste período que pudemos começar a contar com as instalações do edifício do Teatro Jordão e da Garagem Avenida, infraestruturas de grande qualidade, mas temos outros projetos com este município. Estamos também a fazê-lo em Braga, recordo o projeto do Convento de São Francisco, como exemplo maior da colaboração que vamos tecendo, sendo que também é verdade que nos vamos articulando com outros municípios, no sentido da instalação de novos polos da Universidade, polos de natureza diferenciada, mas que não deixam de ser polos de atividade da UMinho. Isto tem-se conseguido de uma forma muito interessante com Famalicão, e agora com Esposende, orientando a atividade nestes, sobretudo para a investigação e inovação.

Diria, por fim, que, nesta estratégia de interação com a sociedade, a UMinho Editora tem vindo a fazer um trabalho notável de divulgação daquilo que é a produção académica, mais genericamente, intelectual dos membros da UMinho, aberta também à colaboração de pessoas externas à Universidade, mas que se está a afirmar como um projeto de grande qualidade.

Estes são, de facto, os grandes marcos que, nestes três eixos fundamentais de atuação da Universidade, gostaria de sinalizar. Claro que isto é efeito de uma comunidade que tem sido caracterizada por uma grande capacidade de resiliência, resistindo muitas vezes a condições adversas, mas não esquecendo nunca aquilo que são os nossos objetivos fundamentais.

Sobre os próximos anos, temos no domínio da Educação, uma grande ambição que é a da reorganização da oferta educativa da Universidade. A nossa oferta educativa é fortemente estruturada sobre cursos conferentes de grau, e estamos a procurar complementar, de uma forma que queremos um alargamento e complexificação da oferta educativa, procurando torná-la sensível àquilo que são necessidades que se exprimem na procura de uma oferta que não é necessariamente conferente de grau. Cursos de curta duração, orientados para a promoção da aquisição de determinado tipo de conhecimentos, competências e capacidades. Este é hoje um objetivo que do nosso ponto de vista a instituição deve perseguir, e que já está a ser materializado em outras instituições no plano internacional.

O outro objetivo prende-se com o facto da qualidade da investigação e da inovação produzida na nossa Universidade. O reforço do corpo de investigadores é um objetivo que está assumido, vamos ter uma circunstância particularmente difícil por efeito do término dos contratos das pessoas que estão entre nós ao abrigo da norma transitória do Decreto-Lei nº 57/2016. Estas pessoas vão ter que, de algum modo, ter condições para a prossecução da sua atividade, a Universidade está preocupada com isso, está a fazer o seu percurso, está a fazê-lo através da criação de uma carreira específica de Técnico Superior de Gestão de Ciência e Tecnologia, estamos também a procurar que junto do ministério sejam desencadeadas medidas que confiram maior autonomia às instituições para desenvolverem aquilo que são políticas de ciência próprias. Portanto, vamos ter um período que vai ser muito estimulante deste ponto de vista, sendo que para nós, uma coisa que é clara, queremos reforçar a nossa posição, queremos continuar a aumentar o número e a qualidade da nossa produção científica, queremos reforçar a carreira de investigação dentro da Universidade e queremos prosseguir o desenvolvimento de projetos de inovação. E aqui, as chamadas agenda mobilizadores, projetos que envolvem as universidades, instituições de investigação, entidades do sistema empresarial, são projetos absolutamente fulcrais para nós. Estamos num largo número de agendas mobilizadoras, em 18, agendas que têm como objetivo, contribuir para a transformação do tecido empresarial em Portugal, da qualificação da nossa economia e desenvolvimento da nossa sociedade. A Universidade está fortemente comprometida com esse tipo de projetos, diria que na área da inovação, esse é o grande objetivo que se nos coloca, criação de condições para que a nossa intervenção nas agendas mobilizadoras seja capaz de ajudar, de dar contributos reais para a transformação do país.

Outra área que projeto como de grande relevância para a instituição, prende-se com a internacionalização da Universidade. Esta faz-se a partir de múltiplos instrumentos, mobilidade de estudantes e docentes, práticas de cooperação internacional no âmbito da cooperação estão muito consolidadas dentro da Universidade, agora, temos uma realidade nova que nos é criada pela participação na Aliança Europeia Arqus. A contribuição para a consolidação da Arqus e a internalização na Universidade daquilo que são as possibilidades que a Arqus abre, são também objetivos fundamentais para este mandato.

Em suma, os grandes objetivos serão a aposta na formação não conferente de grau, aproveitando o caminho aberto pelos programas impulsos do PRR, mas que queremos que ultrapassem o tempo de concretização desses programas. Na área da investigação, o reforço das carreiras e o reforço das nossas unidades de investigação. Na interação com a sociedade, as agendas mobilizadoras, não esquecendo também a necessidade de continuarmos a nossa atividade na esfera cultural que estamos a perspetivar, através de uma redefinição das formas de articulação das várias unidades culturais. A ideia é a definição clara das políticas culturais da UMinho, e que não podem ser aquelas que existiam há 5 anos ou 10 anos, porque, entretanto, o tecido cultural, felizmente, tornou-se muito mais rico e complexo, por isso, agora tem de ser apropriado de uma forma diferente e muito em rede com aquilo que são as outras entidades que compõem o tecido cultural. 

Olhando para dentro da instituição, diria que há dois tipos de projetos principais. Um prende-se com o repensar da Universidade como organização, a Universidade cresceu muito, tornou-se muito mais complexa, o contexto envolvente é muito mais desafiante, coloca-nos novos problemas e requer novas respostas, e nós temos de adequar a nossa organização a esta realidade interna e externa. A revisão dos estatutos, que está já lançada e que esperamos que esteja concluída ao longo de 2023, busca precisamente isso. A proposta está entregue no Conselho Geral, ela admite a criação de novas unidades dentro da Universidade. Vamos ainda este mês, desencadear o processo de revisão do Plano Estratégico da Universidade, documentos importantes para a definição daquilo que é o nosso futuro.

Ainda nesta esfera interna, é nossa grande ambição, criar outro pelouro, que está previsto na equipa reitoral, sobre simplificação e modernização administrativa, aspetos que, para nós, são absolutamente fundamentais. As exigências hoje colocadas sobre a administração da Universidade são muito grandes e, por isso, temos de encontrar caminhos de simplificação administrativa por um lado, e temos de encontrar também caminhos de modernização de todos os nossos sistemas de informação. Esses são dois grandes objetivos, duas grandes ambições neste particular para a Universidade, isto é, precisamos de tornar mais simples os nossos procedimentos, mas também sermos capazes de nos dotar das ferramentas, dos instrumentos que permitam essa simplificação. São dois projetos que estão já em curso e que passam, desde logo, pela revisitação de tudo o que são processos administrativos dentro da Universidade, passa também pela aquisição de novas ferramentas, de novas plataformas informáticas que nos permitam gerir, designadamente, tudo aquilo que são os recursos humanos da instituição e toda a área financeira.

Falando agora da área financeira, diria que uma grande preocupação e objetivo, prende-se com a sustentabilidade financeira da própria instituição. Se não tivermos garantida essa sustentabilidade, não conseguimos concretizar, de forma adequada, a nossa missão. Foi nesse sentido que lançamos o novo modelo de elaboração e aplicação dos orçamentos, criando condições para uma maior autonomia e responsabilidade das nossas unidades orgânicas. 

  • Como vê o papel do Reitor neste meio diverso que é o da Universidade? Sente que tem sido um bom líder?

O que eu sei é que as circunstâncias em que estamos são particularmente difíceis e desafiantes, pelos condicionalismos externos, também por aquilo que é um processo doloroso de transformação interna da própria Universidade, isto num contexto de rarefação de recursos financeiros, que não nos permitem contratar as pessoas que gostaríamos, que não nos permite adquirir todas as ferramentas que necessitaríamos, por efeito daquilo que é subfinanciamento, que é crónico da UMinho face a outras instituições de ensino superior. Estas são as condições objetivas, evidentemente, seria muito mais feliz se tivesse outras condições externas, mas eu sabia que essas eram as minhas circunstâncias. O que posso dizer é que tenho feito o meu melhor, estou rodeado de pessoas em quem deposito grande confiança, procuramos permanentemente incutir nas pessoas, dentro da organização, a importância de não perdermos de vista aquilo que são os objetivos essenciais da Universidade, e, portanto, de não perdermos energia face à adversidade das condições.

O meu papel, entendo-o como o de ser capaz de carrear para dentro da Universidade um capital de esperança, e faço-o recordando aquilo que de muito bom temos feito, mesmo em circunstâncias muito difíceis, e também sinalizando que há no horizonte novas possibilidades, sobretudo aquelas que podem decorrer da alteração do modelo de financiamento das instituições de ensino superior. Esse tem sido o nosso problema fundamental. A UMinho não está a ser adequadamente financiada, isso foi reconhecido pela Senhora Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior aquando da preparação do Orçamento do Estado (OE) para 2023. A nossa Universidade deveria ter sido dotada de mais 14 milhões no orçamento e isto faria toda a diferença para nós. Lamento muito esta circunstância, tenho procurado dizer à comunidade que estando todos nós conscientes da injustiça enorme que está a ser cometida com a Universidade, tenho para mim que não podemos, em caso algum, desistir do nosso compromisso que não é alienável com as pessoas, com a região e com o país, que espera os contributos da UMinho e tem-no demonstrado em contínuo.

Não me cabe fazer uma avaliação da minha atuação, apenas posso dizer que tenho muito claro qual é o caminho que a Universidade deve seguir, estou rodeado de pessoas que interpretam, do meu ponto de vista, de forma adequada esse rumo para a instituição. Temos uma preocupação fundamental de mobilizar a comunidade em torno desses objetivos, aliás, é isso que explica todo o esforço que temos feito para partilhar com as unidades orgânicas, indo às unidades, reunindo com a frequência necessária com as nossas unidades, no sentido de, em permanência, procurar motivar as pessoas, o que às vezes não é fácil dada a adversidade das circunstâncias. 

  • É um “filho” da UMinho. Foi aluno, professor, investigador, teve cargos de gestão e de responsabilidade em várias funções. Revisitando este trajeto, o que lhe apraz dizer em relação a si e sobre a UMinho? Para além da faceta de Reitor, como se interpreta como pessoa e como cidadão? Consegue ter tempo para fazer coisas por prazer e não só por obrigação?

O meu percurso de vida é quase indissociável da Universidade. Cheguei à UMinho, como estudante, em 1976, e com uma escassa interrupção de 4 anos, fiz a minha vida nesta Universidade. Pude acompanhar e viver a notável transformação que a Universidade teve, só possível, a meu ver, por duas circunstâncias. Primeiro, os fundadores da UMinho tinham uma visão muito clara de qual deveria ser o projeto da Universidade e dos seus objetivos, as articulações, as conexões, as relações que a Universidade tinha de procurar estabelecer, e também sobre a forma de organização da própria Universidade. Foi isso que tornou possível, também em situações extremamente difíceis, que a UMinho se tivesse conseguido afirmar. Segundo, as pessoas que fizeram a Universidade, as sucessivas gerações de estudantes, professores, trabalhadores que construíram esta instituição e a tornaram uma instituição de referência como é hoje. A perceção desta história e também a minha participação, responsabiliza-me. O meu tempo organiza-se, sobretudo, em função daquilo que é a vida da Universidade, sobretudo quando o contexto é difícil. Isto acontece também, primeiro, porque consigo encontrar compreensão por parte da minha família, que é, objetivamente, prejudicada pelo exercício destas funções, nestas circunstâncias. Mas isto não me anula como pessoa multidimensional, tenho que, obviamente, encontrar espaços para estar com as pessoas de quem mais gosto e para fazer coisas de que gosto muito. Não prescindo de ler, sempre fui um grande leitor de ficção, de ensaio e de poesia, e continuo a sê-lo, sempre fui um grande apreciador de cinema e continuo a sê-lo, gostaria de praticar mais desporto do que aquilo que pratico, mas é assim. É uma circunstância de vida muito desafiante, mas que não anula a minha multidimensionalidade. 

  • Quais foram os maiores desejos que formulou neste 49.º aniversário desta Academia?

Aquilo que exprimi foi a aspiração de que a UMinho pudesse olhar para aquilo que é a sua missão, revisitando-a, repensando-a em função de novas circunstâncias. O mundo está a mudar de forma muito acelerada, não imaginaríamos que uma crise pandémica se iria abater sobre nós como se abateu, não imaginaríamos que teríamos hoje, a situação política que temos, bem perto de nós, e nos afeta, obviamente, também. Aliás, estamos numa situação política que é muito complexa por efeito da guerra. Estas circunstâncias vão-se alterando de forma cada vez mais rápida, a Universidade deve ser capaz de ver um pouco além da sua circunstância imediata, de se projetar no futuro a partir das antecipações desse mesmo futuro. Portanto, o meu desejo é que a Universidade possa fazer isso, seja capaz de se adequar, sendo que esta adequação não pode inibir a sua natureza de universidade, de casa do conhecimento, e que por isso, tem responsabilidades muito particulares, mesmo de intervenção. A Universidade tem que, por um lado, ser capaz de considerar, de ponderar aquilo que a rodeia, mas fazê-lo também na perspetiva da ação sobre o que a rodeia, enquanto se torna capaz de incorporar aquilo que sobre ela é projetado no exterior. Esta capacidade de se moldar em torno do seu papel transformador, é também aquilo que eu gostaria que a Universidade conseguisse fazer.

Fazer isto, obriga-nos a considerar a organização da Universidade, a considerar aquilo que queremos fazer enquanto instituição de educação, de investigação, promotora do desenvolvimento cultural, social, económico da região e do país onde estamos. O meu voto maior é que a Universidade seja capaz de se continuar a perspetivar como instituição que corresponde às aspirações que sobre ela são projetadas, mas também como instituição que é capaz de transformar o seu contexto. 

  • A UMinho faz, em 2024, 50 anos. Como será assinalada esta data e que marca se pretende deixar?

O programa das comemorações foi apresentado no 49.º aniversário da Universidade, é um programa ambicioso que se vai estender por 2023 e 2024, é um programa que está orientado por algumas ideias fundamentais. A primeira ideia quer-se que seja um momento de celebração de um percurso (a Universidade fez coisas muito relevantes, transformou-se, ajudou a transformar a região e o país) e isso deve ser festejado. Depois, as celebrações não são um momento de natureza nostálgica, nem estão centradas na celebração de um percurso até aqui, elas assumem claramente outro objetivo, o da projeção do futuro na Universidade. Há uma série de eventos que vamos realizar que tem precisamente essa orientação, ou seja, chegados aqui, como é que pensamos os próximos 10, os próximos 20 ou os próximos 50 anos da Universidade.

Depois, como qualquer comemoração, ela tem que ter uma natureza de festa da própria comunidade, vai haver momentos dessa natureza com os quais se vai procurar também consolidar o próprio espírito de solidariedade dentro da Universidade.

É um programa ambicioso, com objetivos bem definidos, que pretende sinalizar a Universidade como detentora de um património relevante, mas sobretudo, como detentora de uma visão para o futuro da instituição, da região e do país. 

  • Considera-se que a UMinho integra o painel das chamadas “Universidades jovens”. Quais os principais aspetos que destaca neste projeto e que a diferenciam de universidades mais clássicas como a de Lisboa, do Porto ou de Coimbra?

A criação da UMinho em 1973, acontece no contexto de transformação muito profunda do ensino superior em Portugal. De alguma forma tinha sido iniciada um ano antes, com a criação do ISCTE, depois com a criação da UMinho, Aveiro, Nova de Lisboa e Évora. O aparecimento destas universidades reconfigura radicalmente o sistema de ensino superior em Portugal, que até então estava limitado a Lisboa, Coimbra e Porto.

Estas universidades, quando chegam, encontram um programa muito consolidado e têm que se afirmar, por isso, têm que ser capazes de construir um projeto diferente e inovador, era isso que nelas estava depositado. A verdade é que o conseguiram e hoje não há quem não reconheça a importância que estas universidades novas tiveram. Conseguiram inovar na educação, desenhando novas ofertas educativas, pensando formas diferentes de organização dos cursos, apostando na interdisciplinaridade, articulando-se de uma forma nova com o meio envolvente, olhando também de uma forma diferente a questão das carreiras dos professores, estimulando o recrutamento de pessoas de outras instituições e instituições estrangeiras ou colocando os seus professores a fazer formação no estrangeiro, consolidando relações internacionais, tudo isto alterou significativamente o panorama do ensino superior em Portugal.

O que nós somos hoje é devedor daquilo que são as nossas instituições mais antigas, mas é muito devedor daquilo que as novas instituições foram capazes de aportar e, estou em crer, contaminaram as outras universidades.

Diria que quem, nos anos 70, pensou este futuro para o ensino superior, e figura maior desse pensamento foi o Professor Doutor Veiga Simão, tinha, de facto, uma visão justa para o ensino superior em Portugal e para o país.

O que as instituições de ensino superior têm vindo a fazer, de facto, é dar corpo a essa visão, naturalmente, com projetos diferenciados, mas acho que o balanço a fazer é francamente positivo. 

  • A história recente da Universidade ficará, naturalmente, marcada pela crise sanitária provocada pela Covid19. Apesar de tudo de negativo que trouxe, podemos dizer que o período foi aproveitado pela Universidade como uma oportunidade? Em que aspeto/dimensão?

Num primeiro momento, a crise sanitária é percecionada, sobretudo, como uma ameaça para a Universidade. Veio pôr em causa modos tradicionais de funcionamento das organizações universitárias. Aquilo a que a crise sanitária nos obrigou foi, de alguma forma, a reinventarmo-nos, a procurar forças e saberes que não sabíamos que tínhamos, para se procurar garantir aquilo que era o essencial para a Universidade.

Aprendemos muito neste processo. Em relação à organização interna, desenvolvemos processos internos, percebemos que o teletrabalho é uma possibilidade real para certos setores de atividades em que as funções sejam compatíveis, aprendemos que muito do nosso trabalho académico podia ter outras formas mais expeditas de realização, aprendemos que a nossa ação educativa pode beneficiar muito para além daquilo que nos era percetível de novos instrumentos tecnológicos. Hoje olhamos para a educação no ensino superior de um modo diferente do que olhávamos antes. Não se pensa regressar aos tempos pré-pandemia, o que se pensa é em novas formas de previsão da educação, com recurso a ferramentas tecnológicas que podem traduzir-se em ganhos efetivos para as pessoas. Portanto, diria que sim, há aprendizagens feitas que nos levam a valorizar mais aquilo que tínhamos antes da crise pandémica, há novas forma de nos organizarmos, novas formas de fazer que fomos adotando. Portanto, é indesmentível que há um impacto real da crise pandémica. 

  • A situação de subfinanciamento da UMinho continua a subsistir? Que valor foi transferido para a UMinho pelo Governo no Orçamento do Estado de 2023. Houve mudanças com a alteração de ministro na pasta do Ensino Superior relativamente ao financiamento do ensino superior e, em particular, desta Universidade?

Há uma alteração que é verdadeiramente importante. As universidades estavam a ser financiadas de acordo com um histórico, quer isto dizer que em 2009, o financiamento disponível no OE para distribuir às universidades foi dividido de acordo com um determinado modelo (número de estudantes, massa salarial), isso significou que “A” teve determinada percentagem de financiamento, “B” teve tanto, e “C” tanto… e, aquilo que se passou de lá até agora foi praticamente a manutenção dessa distribuição percentual. Isto implicou que as universidades que foram crescendo, em número de alunos, cursos, intensidade de trabalho científico, não viram reconhecido esse esforço. A UMinho cresceu muito significativamente em número de alunos e esse crescimento não teve tradução em crescimento de financiamento. Portanto, a Universidade, desse ponto de vista, quantos mais alunos admitia, dando resposta positiva à procura social, mais prejudicada foi ficando. Isto criou-nos, em determinado momento, uma situação muito difícil, de que foi sendo dada conta aos responsáveis políticos que permaneceram na aplicação desse modelo. Na verdade, quando a UMinho cresceu, foi penalizada por isso. Nós tivemos, ao longo de 2022, uma ação muito intensa de várias universidades, junto dos vários atores políticos, procurando sensibilizá-los para o desastre a que estavam a conduzir estas instituições, caso não fossem sensíveis à necessidade de responder àquilo que eram os requisitos de que as universidades tinham que dispor para cumprir a sua missão.

E, pela primeira vez, em 2022, os responsáveis do ministério e o Governo, reconheceram que esta era uma situação iníqua. Foi reconhecido no papel que a UMinho e outras universidades, que se aplicadas as regras que estão em vigor para financiamento da instituição, a UMinho deveria ter um aumento na ordem dos 17 milhões de euros. Não teve 17 milhões, mas, pela primeira vez, a UMinho foi diferenciada positivamente, foi-lhe atribuído um financiamento adicional corretivo de cerca de 2,5 milhões de euros. É um valor claramente insuficiente relativamente ao que devia caber à Universidade, mas é um sinal importantíssimo, pois assenta no reconhecimento que de facto a Universidade não está a ser adequadamente financiada. Há aquele valor que a este propósito costumamos sempre mobilizar: o estudante da UMinho é financiado em 1/3 do que são financiadas algumas instituições em Portugal. Isto é absolutamente inaceitável, traduz-se em prejuízos enormíssimos para a Universidade. Nós, com a atualização daquilo que decorre do contrato-programa para as universidades portuguesas, e depois com esta diferenciação da UMinho e das outras universidades mais subfinanciadas, passamos de 68 milhões para 73 milhões de OE, mas devíamos estar na ordem dos 85 milhões. A Sra. ministra tem anunciado a intenção de rever a fórmula de financiamento, de forma a que ela tenha impacto já no próximo ano, ou seja, no orçamento de 2024. Se tal não se verificar, ela manterá a sua opção de diferenciar positivamente as instituições que estão a ser mais fortemente penalizadas. Portanto, estou relativamente otimista, não em relação à correção repentinamente, não me parece que haja condições para isso se verificar, mas para uma correção num tempo razoável, que permita que a Universidade deixe de ser tão gravemente penalizada como tem sido. 

  • Muito se falou e continua a falar do PRR. Sobre as candidaturas da UMinho ao PRR, o que foi aprovado, que financiamento já recebeu a UMinho, que mudanças estamos a ver e vamos ver no futuro como reflexo das candidaturas aprovadas e outras que ainda vão ser feitas?

A UMinho, naquilo que lhe é possível, tem concorrido a todos os programas. Concorremos ao programa impulsos, a candidatura da UMinho foi das melhores classificadas, foi-nos atribuído um financiamento de cerca de 13,5 milhões, que nos está já a permitir proporcionar formação para adultos e para jovens, mas também suportar intervenções na nossa estrutura pedagógica, tecnológica e física. É um financiamento limitado, mas que nos vai permitir algum tipo de intervenções e requalificação das condições de trabalho e criação de condições para que as pessoas possam ser confrontadas com estas possibilidades de novas formações. Estamos a falar de um programa de 112 cursos, elaborado em articulação direta com empregadores, estamos muito esperançados naquilo que vão ser bons resultados.

Fizemos também candidaturas às residências, foi-nos já transferido um adiantamento dos 5 milhões que nos foi atribuído, portanto, também aí, um bom resultado para a Universidade. Apoiamos também a candidatura da Câmara Municipal de Braga que vai ser também financiada. Vamos ter, portanto, duas novas residências, e desse ponto de vista tivemos também boa capacidade de resposta daquilo que resultou da abertura de candidaturas. Terceiro eixo fundamental, eficiência energética dos edifícios. Apresentamos, há cerca de um ano, uma candidatura a um programa que abriu. Estamos ainda à espera dos resultados, o que é absolutamente incompreensível, quando se considera que este tipo de intervenções é prioritário. Essa candidatura, a ser aprovada como estamos convictos, permitir-nos-á intervenções em vários edifícios, nomeadamente nas cantinas.

Por outro lado, vários dos nossos investigadores, grupos, centros, estão fortemente envolvidos nas agendas mobilizadoras para transformação da economia, é um eixo fundamental do PRR. Estamos envolvidos em 18 agendas mobilizadoras, isso envolverá um financiamento para a Universidade acima dos 30 milhões. São projetos cuja execução se vai iniciar já.

Diria que, naquilo que são as possibilidades que nos estão abertas, estamos a fazer boas candidaturas, que estão a ser aprovadas, portanto, estamos a aproveitar estas possibilidades. Para nós, a lentidão dos processos e, por vezes, a indefinição é, às vezes, incompreensível. 

  • Existe, como todos sabemos, uma necessidade gritante de alojamento específico para estudantes. A UMinho tem, atualmente, uma oferta total de cerca de 1400 camas para cerca de 6000 alunos bolseiros. Quando estarão operacionais as novas residências em Braga e Guimarães? Estas vão resolver os problemas do alojamento? Estão a ser estudadas outras soluções neste âmbito?

Dos cerca de 6000 estudantes bolseiros que temos, a esmagadora maioria são estudantes deslocados. Temos cerca de 1400 camas. Estas duas novas residências representam um acréscimo na ordem das 900 camas, o que é bom, mas insuficiente, é necessário encontrar novos mecanismos. Na minha opinião, as decisões que foram tomadas relativamente a uma distribuição pelas residências universitárias por muitíssimos Concelhos, não é, do meu ponto de vista, a melhor das opções, deveriam ser nos centros onde há realmente estudantes em número significativo e carências reais. Não foi essa a opção que foi tomada. Esperamos que esta situação mais crítica para várias instituições e vários polos universitários continue a ser tida em conta pelo Governo. Isto vem minimizar o problema, mas não vai resolver o problema.

Há que reconhecer que, neste momento, há várias iniciativas de natureza privada que estão a decorrer, quer aqui em Braga, quer em Guimarães. O que não pode acontecer é o Estado prescindir da criação de condições para que todos os estudantes que assim o desejam, possam ter acesso a alojamento no ensino superior. 

  • Naturalmente, também os SASUM sofrem com o subfinanciamento. As queixas têm ocorrido, da parte dos estudantes e não só, em relação à degradação de serviços e instalações. O que nos pode dizer e que soluções estão a ser equacionadas?

Primeiro ponto, existe, de facto, um problema de subfinanciamento da ação social da UMinho. É mais um caso incompreensível. Não se percebe porque é que o financiamento per capita do estudante da UMinho, via ação social, há de ser menor do que o de outras instituições. Isto penaliza-nos uma vez mais, obriga-nos a assentar muito mais do que gostaríamos sobre receitas próprias, obriga-nos a desenvolver a nossa atividade no quadro de grandes constrangimentos, de não poder responder de forma tão imediata como gostaríamos que acontecesse relativamente às necessidades dos nossos estudantes. Estamos a procurar evitar aumentos, ao nível de transportes e alimentação, estamos a procurar encontrar respostas às deficiências que temos nas nossas residências que estão em funcionamento, há uma indicação clara aos Serviços para ser feito um levantamento dos problemas existentes nas várias residências e para a elaboração de um plano que, gradualmente, nos permita melhorar as condições de habitação dos nossos estudantes.

  • A UMinho continua a crescer em várias dimensões. Número de alunos, docentes, trabalhadores técnicos administrativos e de gestão, a nível da investigação e da internacionalização. Temos margem e queremos continuar a crescer em todas estas dimensões? Em que condições?

A Universidade adotou, ao longo da última década, uma estratégia de crescimento. Quando anunciamos esse objetivo institucional, fizemo-lo sempre na presunção de que esse crescimento beneficiaria das adequadas contrapartidas da parte do Estado, mas não é isso que tem acontecido. Pode a Universidade alhear-se daquilo que é a procura social? A meu ver, não. Não pode frustrar as expectativas legítimas das pessoas que querem procurar a Universidade. Mas é evidente que, ou esta situação de subfinanciamento é invertida, ou a Universidade se verá obrigada a repensar a sua própria estratégia.

Esta será uma matéria muito interessante para ser discutida no Plano Estratégico da instituição. 

  • No passado dia 20 de janeiro, foi discutida, em reunião do Conselho Geral, a Proposta de revisão dos Estatutos da Universidade do Minho. Em que ponto estamos do processo e quais as principais alterações que se pretende implementar? Quando será aprovado o documento?

O documento que foi entregue ao Conselho, é um documento em cuja elaboração a comunidade participou de forma muito ativa. Esta proposta assenta num determinado conjunto de vetores, entre os quais o vetor principal é o reforço da autonomia das Unidades Orgânicas. Isso estrutura muitas das alterações que estão a ser feitas. Prevê-se alguma simplificação dos órgãos da Universidade, prevê-se a criação de novas unidades, aquilo a que chamamos unidades interdisciplinares, de forma a permitir acolher projetos que não são enquadráveis apenas numa determinada unidade orgânica. Assumimos um princípio que nos parece importante de dupla afiliação interna, procuramos resolver a questão da pertença, quem é que é ou não membro da Universidade. Há de facto aqui um conjunto de alterações que são importantes, há uma simplificação do próprio documento. A ideia é termos uma instituição, mas ágil, mais policêntrica, e por essa via, mais capaz de responder às alterações no nosso contexto. 

  • Como caracteriza a relação com os municípios que acolhem a UMinho? Que projetos/planos mais relevantes existem atualmente, que visam acrescentar valor às várias partes?

É uma relação francamente boa. Temos, no caso de Braga, projetos partilhados em curso, temos agora a expectativa de, em todo o campus de Gualtar e a zona envolvente, podermos assumir soluções de mobilidade partilhadas com o próprio município e vamos trabalhar nesse sentido.

No caso de Guimarães, temos também uma relação muito especial, e que vai ser proximamente reforçada por aquilo que é já uma decisão tomada pelo município, relativamente à cedência de novos espaços, nomeadamente a Fábrica do Arquinho, espaço onde esperamos vir a alojar alguns projetos fundamentais para a Universidade, como são aqueles que se prendem com a Engenharia Aeroespacial, mas também a atividade de uma importante participada da UMinho, a Fibrenamics.

A propósito da comemoração dos 50 anos, vamos ter também um envolvimento muito forte destes dois municípios, que têm sido parceiros da Universidade, têm beneficiado muito da presença da Universidade, e querem também com esta associação às comemorações, marcar esta natureza própria de Guimarães e Braga como cidades universitárias. 

  • A Universidade, as suas Escolas, continuam a reclamar a falta de recursos humanos, muitos deles na academia quase desde a sua criação e, por isso, muito próximos da aposentação. O que está a ser feito, de forma a resolver e prevenir o problema futuramente, assegurando, inclusivamente, a transferência de conhecimento?

Esta questão do envelhecimento dos corpos da Universidade é conhecida, aliás, a administração pública portuguesa carece de uma resposta efetiva a este problema que é transversal a muitas organizações e instituições. No caso da UMinho, isto tem contornos muito particulares porque a contratação inicial dos professores da instituição aparece centrada num tempo bastante curto. Portanto, temos um número muito significativo de pessoas que foi conjuntamente envelhecendo ao longo do tempo e que agora se aproximam do momento da reforma, e isto pode colocar em causa uma questão essencial para a Universidade, que é assegurar uma transferência intergeracional do saber que foi sendo acumulado. Não é, no entanto, uma situação fácil de resolver no atual quadro. O que estamos a fazer é ir, na medida do possível, integrando pessoas novas para fazer face a necessidades decorrentes de novos projetos de ensino que temos, mas, não podemos deixar de o fazer de uma forma cautelosa, assegurando, por outro lado, que os docentes de raiz ou no quadro da progressiva substituição de pessoas, correspondem a necessidades efetivas que temos. É um problema que está identificado, é muito sério pelas implicações que pode ter na vida da Universidade, mas que não pode ser tratado de ânimo leve pelas questões da sustentabilidade financeira da Universidade, com as quais tenho de estar estatutariamente comprometido. 

  • Os SASUM fecharam 2022 com uma nova administradora e com o Plano de Atividades e Orçamento 2023 aprovado. Após um período muito complicado, já podemos falar em recuperação da sustentabilidade financeira?

Atravessamos anos muito difíceis, os anos da pandemia afetaram muito severamente a atividade dos SASUM e, na verdade, estávamos todos muito esperançados que o ano de 2022 e agora o ano 2023, fossem anos mais tranquilos e permitissem uma efetiva recuperação dos Serviços. Recordo que em áreas centrais como a alimentação, por exemplo, tivemos largos períodos em que a Universidade esteve encerrada, e de alguma forma, os públicos que os SASUM servem não estavam nos campi. Com a diminuição do impacto da pandemia, evidentemente, estávamos todos convictos que os Serviços iriam recuperar a sua atividade regular. Assim foi acontecendo, mas isto não significou que tivéssemos entrado num período propriamente de grande tranquilidade, porque estamos a ser apanhados por aquilo que é resultado de um processo inflacionário muito significativo e que tem impacto em bens que os SASUM utilizam para a sua atividade, e que vem colocando sobre nós especial pressão. Falo dos bens alimentares, mas podia falar da energia e do gás, que tiveram aumentos fortíssimos nos seus custos, e que, naturalmente, por isso, vão afetando também o funcionamento dos Serviços. Mas, dito isto, diria que teremos, em 2023, um ano de equilíbrio das nossas contas e até de alguma recuperação. Sendo certo que se nos vão impondo outras necessidades, designadamente aquelas que decorrem das obras de intervenção que temos de fazer em algumas das nossas residências.

Diria que estamos num quadro que é mais favorável que os dois anos anteriores, mas não deixa de ser um quadro onde existem algumas nuvens, e por isso, conseguimos antecipar algumas dificuldades.

Quero acreditar que aquilo que tem sido habitual nos Serviços, a disponibilidade das pessoas, o compromisso com a nossa atividade, nos vais ajudar a enfrentar melhor situações que são difíceis, mas que não nos impedem de continuar a perseguir aquilo é a razão fundamental de ser dos Serviços, que é de facto, prestar apoio em áreas essenciais aos nossos estudantes (alimentação, alojamento, desporto) e também à comunidade académica. Neste momento, está aprovado o Plano de Atividades e Orçamento para 2023, temos uma nova Administradora que saberá imprimir um rumo, certamente diferente aos SASUM, fruto da sua visão própria, mas garantindo que continuem a ser aquilo que é a sua razão fundamental ser, apoio à comunidade universitária e particularmente aos estudantes. 

  • Muito se fala na promoção do bem-estar e saúde mental dos trabalhadores nas instituições. O que tem sido feito na UMinho nessa direção, como tem sido avaliado junto da comunidade académica e qual a importância do tema para o Reitor da UMinho?

Esta é hoje uma preocupação essencial da direção da Universidade e é uma preocupação partilhada pelos responsáveis das instituições de ensino superior e de outras instituições e organizações do nosso país. Na verdade, a pandemia veio-nos pôr de sobreaviso e chamar a atenção para a importância da criação de condições que sejam fatores de bem-estar e de preservação da saúde mental das pessoas. Deste ponto de vista, os anos da pandemia foram, de facto, muito duros, por aquilo que representaram de alteração radical das formas de interação a que estávamos habituados, isso tornou-nos, de certa forma, mais sós, os laços relacionais foram afetados, o modo de viver alterou-se substancialmente, e modificações deste tipo têm naturalmente muito impacto sobre o bem-estar e sobre a saúde de todos nós.

Vivemos agora tempos difíceis por efeito da crise económica, a situação de guerra na Europa paira sobre todos nós e isto torna ainda mais premente uma atenção e cuidado especial às questões do bem-estar e da saúde mental.

Diria que, neste particular, aquilo que vem sendo feito, é a assunção de que estas são áreas de atuação relevantes para as comunidades e para a nossa comunidade universitária. É algo sobre o qual vale a pena pensarmos e refletirmos, algo sobre o qual vale a pena intervirmos. Tem havido várias iniciativas dentro da Universidade que têm vindo a funcionar como uma espécie de alertas para esta realidade. O objetivo é aumentar o nosso grau de consciência relativamente as estas matérias, depois, temos de estar preparados para desenvolver iniciativas concretas que de facto transformem o modo em que vivemos e trabalhamos dentro da instituição, de forma a torná-lo mais amigável. Aqui, há iniciativas que a Universidade pode tomar, mas esta é, claramente, uma daquelas áreas para a qual todos nos devemos sentir convocados. Passa por cada um nós, passa pela nossa ação, passa pela seleção de formas adequadas desta relação com os outros, a criação de um ambiente que nos torne desejosos de estar na Universidade e que não torne a presença na Universidade um fator adicional de pressão sobre as pessoas. Esta é uma responsabilidade de todos nós, todos nos devemos sentir obrigados a criar um bom ambiente de trabalho que permita que cada um de nós exprima aquilo que tem de melhor na sua atividade. Mas este é um percurso que estamos a fazer, diria que estamos ainda em sede de tomada de consciência da relevância destas matérias, mas há passos mais sólidos que têm de ser dados no sentido de se passar para a ação. Esta passa pela identificação de situações de risco, por iniciativas capazes de obviar essas situações de risco e também por iniciativas corretoras de situações mais críticas que possam ser identificadas. 

  • O arranque da construção da nova sede da Associação Académica (AAUMinho) será uma realidade em 2023? O que nos pode dizer neste âmbito?

Essa é a minha expectativa. Nós afirmamos um acordo com Associação Académica para a cedência de espaço, também apoiamos, em alguma medida, a elaboração do projeto que ficará no campus de Gualtar, e das últimas interações que tenho tido com a Associação, esse projeto, depois de alguns acertos, está muito próximo de estar pronto. A partir daí, o que se tratará é da formalização da cedência do espaço e depois o início da obra propriamente dita.

É uma obra que vai ser exigente no plano financeiro, vamos ter de encontrar formas de financiamento do edifício, felizmente, a Associação Académica foi capaz de ao longo do tempo ir acumulando verbas que permitem dar passos importantes no projeto. A Universidade, dentro daquilo que forem as suas possibilidades, cuidará de apoiar uma iniciativa que achamos que é absolutamente fundamental para melhorar as condições de atividade dos nossos estudantes, dos grupos culturais, das estruturas associativas. Como é sabido, o edifício da Rua D. Pedro V já não cumpre, adequadamente, este tipo de funções. 

  • A Universidade, através dos SASUM e em cooperação com a AAUMinho organizará, entre 16 e 23 de julho, o Campeonato Europeu Universitário de Voleibol 2023. Quais as perspetivas para este evento?

A UMinho, através dos SASUM e a AAUMinho têm uma já larga tradição de organização de eventos desportivos, seja à escala europeia, seja à escala mundial. Este é mais um evento cuja organização nos foi atribuída, temos uma experiência grande acumulada, que nos permite antecipar que este, como tem acontecido noutros casos, será um sucesso organizativo. É mais um evento que nos vai colocar especiais exigências pelas centenas de pessoas que vai envolver, não só atletas, como dirigentes, acompanhantes, técnicos, etc. Mas estamos a fazer a preparação que é necessário fazer em ocasiões como esta, os SASUM, e em especial o departamento de Desporto e Cultura, está fortemente comprometido com a preparação desta organização. Estamos certos que vai correr dentro daquilo que são as nossas melhores expectativas. 

  • Dos vários projetos, dos vários processos, dos vários temas que tem em mãos: qual é aquele que, manifestamente, quer concluir antes de terminar o seu mandato?

No desenho de ação que fiz para este quadriénio de 21-25, desenhei aquilo que me parece ser um programa exequível. Naturalmente, alguns dos projetos que estão ali equacionados, dar-me-ia especial gosto que fossem concluídos neste período. Refiro-me, em particular, às residências universitárias, porque elas responderiam a uma aspiração muito profunda e muito justa da Universidade e dos seus estudantes. Seria um projeto que me daria especial prazer.

Num outro plano, gostaria muito que no momento em que cessasse funções como reitor, tivéssemos já redirecionada a nossa oferta educativa, adequando-a às novas circunstâncias, gostaria também que a Universidade consolidasse ainda mais o seu papel de Universidade de investigação, gostaria ainda que a nossa instituição, no plano do seu funcionamento interno e da sua organização, fosse uma Universidade mais ajustada aquilo que são as necessidades próprias do nosso tempo. São algumas das iniciativas que gostaria de ver concluídas ao longo deste mandato. Sei, por outro lado, e é uma certeza que tenho, que a Universidade se manterá como um ator fundamental de desenvolvimento da região norte e do nosso país.

Finalmente, algo que me deixaria muito tranquilo e com o sentido de dever cumprido, seria ter contribuído, de forma significativa, para a melhoria da situação financeira da instituição, criando condições mais fortes para a sua sustentabilidade financeira, o que supõe, sobretudo, a revisão daquilo que tem sido o modelo de financiamento das universidades portuguesas e da UMinho, em particular.

São ambições significativas, que do meu ponto de vista são exequíveis, e se assim for, obviamente, ficarei satisfeito. 

  • Como habitualmente e para finalizar, que mensagem gostaria de deixar à Academia?

É uma mensagem que não pode ignorar os tempos de dificuldade que atravessamos, mas considerando esta natureza desafiante das nossas circunstâncias, a palavra que eu gostaria sobretudo de deixar, é uma palavra de esperança e uma palavra de otimismo no futuro da instituição.

A UMinho foi uma Universidade que cresceu continuamente em condições que lhe foram bastante adversas, mas foi capaz de contornar, de ultrapassar todas essas dificuldades, todos os obstáculos que lhe surgiram para se afirmar como uma Universidade de referência. É esta história que nos responsabiliza, que, do meu ponto de vista, deve suportar um olhar esperançoso e ambicioso para o futuro da instituição. Futuro que só se conseguirá construir se houver, da parte de toda a comunidade, um efetivo envolvimento. Um efetivo envolvimento com aquilo que são os grandes objetivos da instituição, tais como prover uma educação de nível superior para as pessoas, alargar as fronteiras do conhecimento humano, contribuir para o desenvolvimento social, cultural e económico da região e das pessoas e, dessa maneira, contribuir para um futuro mais promissor para todos nós e para o nosso país.

Queria ainda deixar uma palavra de agradecimento à resiliência evidenciada por todos, no modo como vamos enfrentando um tempo que é marcado por profundas dificuldades.

Mas o meu olhar é ainda e sempre, um olhar de otimismo relativamente ao futuro, que se baseia naquilo que é a nossa realidade atual, naquilo que é a nossa história, que não esconde dificuldades, mas que se baseia numa convicção forte acerca da relevância do projeto da UMinho para todos.

Texto: Ana Marques 

Foto: Nuno Gonçalves 

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