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A Saúde Mental como desígnio de todos nós

Artigo de opinião – João Tiago Oliveira
Investigador em Psicoterapia do CIPsi – Centro de Investigação em Psicologia
Docente da Escola de Psicologia
Universidade do Minho.

Sentou-se cabisbaixa, mal consegui perceber os seus olhos, com um ar frágil, vulnerável, as mãos juntas no seu colo e uma voz quase impercetível, rompida por lágrimas sufocadas quando perguntei,

O que a trouxe cá?

Demorou alguns segundos, largos, a conseguir articular a primeira frase,

– Eu não presto, eu não valho nada, não vale a pena.

Por muita experiência que tenhamos, sempre que ouvimos algo assim é inevitável que um desconforto se apodere de nós, dando imediatamente lugar à compaixão que nos liga ao sofrimento da pessoa que está à nossa frente. De novo alguém que chega à consulta no limite do suportável. Tinha ficado perto do ponto sem retorno, uns escassos 10 metros da linha de comboio. Era a primeira vez que pedia ajuda, nunca tinha falado sobre o que sentia, muito menos com as suas amigas da universidade. A vergonha, o sentimento de incompetência e inferioridade eram as principais razões para nunca o ter feito.

O caso da Joana, vamos chamar-lhe assim, está longe de ser um exemplo com pouca expressão. A Organização Mundial de Saúde estima que em 2030 a depressão vai ser a condição clínica com o maior peso nos sistemas de saúde dos países desenvolvidos.

Em Portugal as perturbações psiquiátricas, onde se inclui a depressão, atingem praticamente um quarto da população, colocando o país no segundo lugar entre os países europeus. Estas perturbações são a principal causa de incapacidade e de reforma antecipada em muitos países, tendo um impacto significativo na economia. Representam cerca de 20% do peso da doença na Europa, sendo que só a depressão e as perturbações de ansiedade custam cerca de 170 mil milhões de euros por ano.

Atualmente falamos cada vez mais de Saúde Mental, de como a podemos promover e do quão importante é cuidar dela. Apesar disso, em Portugal continuamos com respostas largamente insuficientes desde a prevenção ao tratamento. Para além de todos os mitos e crenças associados à doença mental, o facto de o acesso ao tratamento psicológico ser tão difícil faz com que se perpetuem ideias erradas. Como sociedade, temos de saber cada vez mais sobre Saúde Mental. Temos de conseguir falar sobre a depressão ou ansiedade como falamos de uma outra qualquer doença. Temos de sentir que podemos dizer aos nossos amigos, à nossa família: “sinto-me deprimido”. Temos de ter acesso a tratamento de excelência. Não só por cada um de nós, mas sim por todos, como um desígnio nacional.

 

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