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Entrevista ao Presidente da Comissão Comemorativa dos 50 anos da Universidade do Minho, João Cardoso Rosas

João Cardoso Rosas é o Presidente da Comissão Comemorativa dos 50 anos da Universidade do Minho, estabelecida pelo Despacho RT 31/2022, que a dota também de apoio secretarial e orçamental. Responsável por todo o programa de comemorações, integra, além do seu presidente, mais 10 membros. Neste âmbito, existe ainda uma Comissão de Honra constituída por 20 membros.

João Cardoso Rosas é, neste momento, presidente da Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas (ELACH). É ainda professor no Departamento de Filosofia e investigador no Centro de Ética, Política e Sociedade.

A Universidade do Minho aproxima-se dos seus 50 anos, contados a partir da tomada de posse da sua Comissão Instaladora, a 17 de fevereiro de 1974. O Programa de Comemorações dos 50 Anos pretende celebrar a Instituição e pensar o seu futuro, mas também promover a reflexão sobre o ensino superior e os seus desenvolvimentos. A decorrer ao longo de 2023, terá como ponto culminante o Dia da Universidade, a 17 de fevereiro de 2024. 

Como se deu a sua entrada na UMinho?

Entrei através de concurso para assistente estagiário, quando estava ainda a completar o mestrado na Universidade do Porto. Embora viesse de outra cidade e não conhecesse ninguém em Braga nem na Universidade do Minho, a adaptação à cidade e à instituição foi fácil. A UMinho estava numa fase de crescimento, com grande abertura em relação aos recém-chegados.

O que lhe deu e continua a dar esta Universidade? Como o marcou a UMinho pessoalmente?

Aquilo que eu senti ao chegar a uma universidade nova, vindo de uma instituição mais antiga, foi muita ?energia positiva?. Na altura havia aqui mais meios, as instalações eram melhores (o campus de Gualtar, para onde vim, tinha acabado de se inaugurar), as bibliotecas mais atualizadas, os serviços mais eficazes, a relação entre docentes e discentes mais horizontal e saudável. O chamado ?modelo matricial? permitia fazer junções e cruzamentos disciplinares impossíveis em outras universidades portuguesas. Isso foi muito importante para a minha formação e evolução académica e pessoal. O ambiente desses anos permaneceu para mim uma inspiração, mesmo em contextos mais adversos.

Comemorar 50 anos é propício a refletir acerca da memória institucional, mas é, sobretudo, perspetivar o futuro. Como foi pensada, e que sentido tem a programação das atividades comemorativas dos 50 anos?

Sem dúvida, memória e futuro têm de estar associados. Por isso a programação tem muitos aspetos que remetem para a reflexão sobre o passado e para a sua celebração. Mas tem também muito desporto e outras atividades para propiciar o bem-estar da comunidade académica, como foi este ano o piquenique de acolhimento aos novos alunos (em Azurém). Tem ainda espetáculos, concertos, exposições. E conferências e colóquios, assim como publicações, que visam recuperar a história, mas, sobretudo, perspetivar o presente e o futuro próximo da UMinho e do próprio sistema universitário.

Como está a viver este momento de comemoração?

Com esperança e confiança nas potencialidades da UMinho. Os 50 anos correspondem ao que internacionalmente se considera a maioridade de uma instituição universitária. Creio por isso que chegou o momento de revalorizar aquilo que já fizemos e lançar as bases do futuro. Isso implica abandonar a litania da queixa que por vezes se instala entre nós. Mas implica também a coragem de mudar de forma profunda a estrutura da instituição e os seus procedimentos internos, com vista a ultrapassar as muitas ineficiências existentes. Vivo esta comemoração como uma oportunidade de contribuir, ainda que modestamente, para um novo impulso da Universidade do Minho.

Na sua opinião, o pequeno grupo de visionários que há 50 anos fez nascer a Universidade do Minho pode orgulhar-se dos resultados? Como docente da UMinho, que balanço faz do trajeto da Academia nestes cinquenta anos e do trabalho que vem sendo feito?

Sim, creio que se poderiam orgulhar do trabalho feito e dos seus resultados. A nossa universidade implantou-se num território com grandes défices educacionais e culturais e, em muitos aspetos, conseguiu dar a volta a esse território. Ultrapassou quezílias locais, resistiu ao extremo centralismo do país e afirmou-se como instituição de referência a nível nacional e, em algumas áreas do conhecimento, também a nível internacional. Pensando bem, tomando em conta o ponto de partida da região e do país, temos de reconhecer que foi um percurso extraordinário. Mas há ainda muito por fazer?

A programação das comemorações é extensa e diversa. Já vem acontecendo ao longo de 2023 e continuará ao longo de 2024. O que mais destaca ao longo do programa?

Aproveitaria para destacar, restringindo-me apenas aos próximos meses, o lançamento do estudo sobre a produção científica da UMinho ao longo destes 50 anos, o estudo sobre o impacto económico, social e cultural da instituição, a sessão solene e o concerto do próximo dia 17 de fevereiro, com Sua Excelência o Senhor Presidente da República, o início da exposição itinerante sobre a universidade (que vai percorrer as cidades da região), o colóquio internacional sobre ?As Universidades Novas no contexto da Democratização Portuguesa?, a meia-maratona a ligar os campi de Azurém e Gualtar, etc. São muitas coisas?

A UMinho é, e tem vindo a ser, um ?motor? económico e social da região. Como vê a relação atual da Academia com as cidades que a acolhem e qual o seu papel nos próximos 50 anos. Quais são para si os desafios e oportunidades que a região coloca à Universidade e que a Universidade coloca à região?

Essa relação entre a UMinho e as cidades que a acolhem é para mim fundamental. Temos de contribuir para afirmar Braga e Guimarães não apenas como cidades históricas e comerciais ? identidades que já têm bem firmadas – mas também como cidades universitárias e lugares de produção e disseminação de conhecimento e de criação cultural. No quadro da revolução tecnológica que continuamos a viver, mas também das ameaças à sua sustentabilidade, as cidades que se vão afirmar no futuro são aquelas que forem capazes de unir as suas capacidades produtivas ao conhecimento e à cultura. Por isso considero de primeira importância a relação entre a UMinho e os municípios de Braga e Guimarães.

O mote das comemorações é ?Quer-se celebrar o passado, os 50 anos da UMinho, mas também – e sobretudo ? valorizar as pessoas e a sua diversidade, mostrar aquilo que a universidade é hoje, o seu impacto social, e projetá-la para o futuro, tendo como referência o ano de 2050?. Como vê a UMinho em 2050?

O futuro está aberto e muito do que a universidade será dentro de 50 anos vai depender de fatores que lhe são externos. Mas depende também da nossa visão e da capacidade para levá-la a cabo. Os próximos 50 anos constroem-se a partir de agora. Para isso precisamos de reformar a orgânica interna da UMinho, torná-la mais ágil e motivar as pessoas para trabalhar onde são mais necessárias, aprendendo com o que não correu bem em anteriores reestruturações. Mas precisamos também de reverter o modelo incremental – que continua predominante – e tem feito crescer a nossa universidade continuamente, muitas vezes sem a necessária preparação prévia. É necessário que as áreas de ensino e investigação já existentes sejam dotadas de condições materiais adequadas. Precisamos de apostar na qualidade construtiva e paisagística dos campi, particularmente deficitária em Gualtar. Temos de oferecer aos nossos alunos não apenas a oportunidade de uma especialização técnica, mas também uma experiência cultural relevante. Não me conformo com o facto de que muitos dos nossos estudantes assistem todos os anos a concertos de música pimba, mas nunca contactam com manifestações musicais mais elaboradas, com o teatro clássico, com as grandes tradições literárias e artísticas.

Quais as razões/argumentos mais fortes para que um estudante opte por vir estudar para a UMinho?

As pessoas, os docentes e investigadores desta universidade, assim como muitos outros funcionários que aqui trabalham e dão mostras de inexcedível dedicação e competência. As disfunções organizacionais são superáveis, os défices financeiros ultrapassáveis. Mas a qualidade das pessoas não se encontra facilmente em qualquer lugar. Essa é a maior riqueza da UMinho e a razão fundamental para um jovem aqui estudar e preparar o seu futuro.

A UMinho tem e continua a manter uma boa relação e proximidade com muitos ex-alunos, inclusive pessoas que já passaram por cá há 30, 40 ou mais anos. Qual é para si a importância desta relação e porque deve ser cultivada e mantida?

A relação da UMinho com os seus alumni é muito importante, não tanto pelas mesmas razões que assistem a essa relação nas universidades americanas, sobretudo interessadas em pedir aos seus antigos alunos contribuições financeiras, mas mais pela singularidade desta instituição em termos do seu impacto social. Como referi acima, a UMinho foi e é central na promoção de toda uma região e do próprio país e eu olho para os nossos diplomados como estando investidos de uma missão de transformação e modernização, na qual a instituição deve continuar a investir. 

O bem-estar nos campi é uma das áreas focais destas comemorações. Como seria para si, neste aspeto, a universidade ideal?

Tem de ser uma universidade implantada na região, mas aberta ao mundo, plural e inclusiva. Tem de ser um lugar de liberdade de expressão e respeito mútuo. Tem de permitir o debate sobre as grandes questões do nosso tempo e a expressão das manifestações artísticas mais elaboradas. Tem de ser, em suma, um espaço de conhecimento, mas também de cultura e civilidade.   

Uma mensagem à Academia?

Ultrapassar divergências, juntar boas-vontades, ter a coragem de decidir, construir a universidade do futuro seguindo o exemplo dos seus fundadores.

 

Texto: Ana Marques

Foto: Nuno Gonçalves

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