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“Há mais vida para lá da universidade”

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“Há mais vida para lá da universidade”

Ana Marques  ⠿ 30-07-2026 16:00

Docente da Escola de Engenharia, antigo estudante da UMinho e praticante de desporto desde sempre, Bruno Dias defende uma formação que vai muito além da excelência técnica. Para o investigador, a Engenharia faz-se com conhecimento, mas também com cultura, desporto e experiências que ajudam a formar melhores profissionais e melhores pessoas.

Atualmente é docente e investigador da Escola de Engenharia da Universidade do Minho. Como começou a sua ligação à Engenharia e o que o motivou a seguir esta área?

Quando era um jovem estudante do ensino secundário iniciei o meu contacto com os computadores pessoais e comecei a estudar programação nos meus tempos livres. Enquanto andava no meu 12º ano na Escola Francisco de Holanda em Guimarães fiz os meus primeiros programas didáticos para a disciplina de Física (em BASIC) e depois um jogo (em Linguagem Máquina) nas férias antes de entrar na Universidade do Minho. Também gostava muito de desenho técnico, tendo tido três anos de desenho técnico na opção curricular de Mecânica. Portanto, quando me candidatei ao ensino superior escolhi como primeira opção a antiga Licenciatura em Engenharia de Sistema e Informática na Universidade do Minho e como segunda opção Arquitetura na Universidade do Porto. Entrei na primeira e foi assim que oficialmente comecei o percurso na Engenharia.

Foi estudante da Universidade do Minho. Que memórias guarda dos seus anos de formação na academia e de que forma essa experiência influenciou o seu percurso profissional?

Gostei muito do meu percurso estudantil na Licenciatura em Engenharia de Sistema e Informática na Universidade do Minho, entre 1986 e 1991, quando ainda era um curso de cinco anos. Tive oportunidade de aprender muita coisa nova para além dos currículos das disciplinas e fiquei mais ou menos fascinado pelo meio universitário e comecei a planear um futuro profissional como docente da universidade durante os últimos anos do curso quando me convidaram para ser monitor nas aulas práticas da disciplina de Sistemas Operativos. Quando acabei o curso e regressei a Portugal (o último semestre passei-o num estágio profissional nos Países Baixos) aceitei o convite para integrar o grupo de Comunicações por Computador do Departamento de Informática, posição que ocupo até hoje.

Ao longo do seu percurso enquanto estudante da Universidade do Minho, beneficiou de algum apoio disponibilizado pelos SASUM, nomeadamente bolsa de estudo, alojamento em residência universitária, apoio alimentar ou outros serviços? De que forma esses apoios contribuíram para a sua experiência académica?

Beneficiei de apoios do SASUM em deslocações a eventos desportivos onde participei como atleta e recebi uma pequena bolsa por serviços de instrução na modalidade de Karaté. Sem esses apoios teria sido mais difícil realizar essas atividades. Em relação à experiência académica clássica, não recebi mais apoios do SASUM.

Independentemente de ter recorrido diretamente a esses apoios, qual considera ser a importância da ação social e dos serviços de apoio ao estudante na promoção da igualdade de oportunidades e do sucesso académico no ensino superior?

Considero esses apoios muito importantes. Sem eles muitos colegas meus não teriam conseguido entrar na universidade e tirar um curso superior. Além disso, desde que sou docente, constato que sem esses apoios sociais uma parte relevante dos meus alunos não teriam conseguido manter-se na universidade. Esses apoios são fulcrais para se tentar, ainda que, para já, insuficientemente, promover igualdade de oportunidades para todos no acesso e permanência no ensino superior. O ideal seria que o ensino superior tivesse níveis de quase gratuitidade como o ensino até ao 12º ano.

Que balanço faz do seu percurso académico e profissional até ao momento? Quais considera terem sido os momentos mais marcantes?

O meu percurso académico foi discreto e acabará discreto. Sou um docente e investigador sem grandes ambições de conseguir valores acima da média nas métricas que hoje em dia governam o ensino superior. Além disso prezo muito o meu tempo extraprofissional para me dedicar a outras atividades que sempre gostei desde jovem e à minha família. Talvez os momentos mais marcantes tenham sido o final do meu doutoramento e os anos em que fui diretor do antigo curso, pré-Bolonha, de Licenciatura em Engenharia de Comunicações. De qualquer forma, não sou uma pessoa que ligue muito a momentos marcantes na vida profissional.

O que mais o motiva na atividade docente e no contacto diário com os estudantes?

Poder ajudar os estudantes e motivá-los a serem bons profissionais e melhores seres humanos é aquilo que mais me motiva.

A Escola de Engenharia é hoje uma das maiores e mais reconhecidas escolas da Universidade do Minho. Na sua perspetiva, quais são os principais fatores que distinguem esta Escola?

O principal reconhecimento vem do facto de ser a escola que é responsável pelos cursos mais reputados da Universidade do Minho, tem um nível de investigação que tem bons pergaminhos e uma boa ligação ao tecido empresarial, e, por fim, é a escola que recebe anualmente a maior quantidade de estudantes da universidade.

Que desafios considera que a Engenharia enfrenta atualmente, quer ao nível da formação, quer ao nível da investigação e da ligação à sociedade?

Está tudo interligado e parece-me que o principal desafio está na redefinição das principais missões da escola, por forma a recentrar as funções de bem formar alunos e de fazer uma investigação num tempo que promova resultados sólidos. Nesta altura os objetivos estão demasiado orientados para as atividades de se construir uma carreira e um currículo profissional e de angariar fundos que patrocinem a investigação dentro de projetos de curta duração e de objetivos muito parcelares, que adicionam coisas de pouca relevância ao conhecimento já adquirido.

Para além da sua atividade académica, mantém uma forte ligação ao desporto. Como surgiu essa ligação e que papel tem desempenhado ao longo da sua vida?

A ligação ao desporto surgiu desde tenra idade por influência do meu pai. Fui praticando vários desportos com regularidade diária, sendo que, o Karaté primeiro e depois o Squash, foram aos que me dediquei a um nível mais sério. Inclusive, fui, durante quase uma década, presidente da federação portuguesa de Squash. Há cerca de uma dúzia de anos abandonei o Squash como atividade desportiva principal e dediquei-me ao atletismo, nomeadamente às corridas longas na montanha (Ultra Trail Running), até um problema de saúde me impedir de treinar adequadamente para essa modalidade. Hoje, e apesar dos quase sessenta anos de idade, continuo a dedicar uma parte importante do meu dia a atividades extraprofissionais, incluindo o desporto acima de tudo. Faço manutenção frequente no ginásio e pratico Padel com regularidade religiosa, que é como quem diz, quase diariamente. Sem estas atividades a minha vida tinha sido muito mais aborrecida nem tinha conhecido pessoas e locais maravilhosos.

De que forma tem conseguido conciliar as exigências da docência, da investigação e da atividade desportiva?

Nem sempre bem, mas, felizmente, na maior das vezes, são conciliáveis.  Se ainda acrescentarmos a vida familiar, o problema da conciliação temporal torna-se, às vezes, irresolúvel. Quando isso acontece costumo redefinir objetivos, que é como quem diz, baixo as expetativas do que pretendo atingir numa ou mais dessas atividades, de acordo com o tempo disponível.

Que competências adquiridas através do desporto considera terem sido mais importantes para o seu percurso pessoal e profissional?

De certeza que para o meu percurso de formação como ser humano, o desporto foi muito importante. Ensinou-me a lidar com a frustração da derrota ou de não se conseguir atingir expetativas esperadas. Também me ensinou a ser perseverante e a esperar melhores resultados com mais dedicação. De certeza que isto também influenciou a minha postura na minha atividade profissional, ainda que possa ter dificuldade em reconhecer de que formas concretas. Talvez possa dizer que o desporto me tornou melhor pessoa e que isso me ajudou a ser melhor profissional, pelo menos medindo pelas métricas que mais prezo.

Na sua opinião, que benefícios pode o desporto trazer aos estudantes universitários, não apenas ao nível da saúde e do bem-estar, mas também do sucesso académico?

Não consigo pensar em benefícios maiores que esses e que, de certeza, influenciarão positivamente o sucesso académico dos alunos. Mas também consigo pensar em prejuízos que uma prática desportiva desregulada, como por exemplo a que se pratica em desportos de alta-competição, pode trazer aos estudantes da academia. É necessário que a prática desportiva exista, mas com conta peso e medida e que não sirva para aumentar desnecessariamente o cansaço e a frustração de que muitos alunos padecem.

A Universidade do Minho tem vindo a afirmar-se também pelo seu trabalho no desporto universitário. Como avalia esta aposta e a importância dos apoios disponibilizados aos estudantes-atletas?

Sei que a Universidade do Minho sempre teve um papel importante no desporto universitário em Braga e Guimarães. No entanto, não sei qual o nível concreto de apoio que disponibiliza aos estudantes-atletas e à comunidade estudantil em geral. De qualquer forma, arrisco dizer que todos os apoios e iniciativas são poucas, incluindo as de promoção da prática desportiva para toda a comunidade académica.

Ao longo do seu percurso na Universidade, teve contacto com diferentes gerações de estudantes. Considera que os jovens de hoje encaram de forma diferente a vida académica, o associativismo e a participação em atividades extracurriculares?

Tenho a impressão que as gerações mais recentes têm, infelizmente, uma visão cada vez mais transacional da sua atividade académica. Estou em querer que resulta da necessária maior democratização do acesso ao ensino superior e da visão que a universidade presta, acima de tudo, um serviço importante para o seu futuro profissional. Esta atitude mais desligada da academia, talvez mais egoísta e menos madura dentro da universidade deve ser “apenas” o reflexo da sociedade como um todo.

Que importância atribui a experiências como o desporto, o voluntariado, a cultura ou o associativismo na formação integral de um estudante universitário?

A cultura e o desporto (numa forma associativa ou não) deveriam tornar a ser parte integrante do currículo académico e não apenas para os estudantes que já são atletas ou que têm já algum passado ligado ao desporto. Acredito que isto, em geral, tornaria os alunos melhores pessoas, mais felizes. E pessoas melhores fazem melhores engenheiros.

Que conselho deixaria aos atuais estudantes da Escola de Engenharia que procuram construir um percurso académico sólido sem abdicar de outras dimensões da vida universitária?

Diria mais ainda, que nunca abdiquem das outras dimensões da vossa vida enquanto forem estudantes universitários. Provavelmente algumas dessas dimensões podem ser continuadas dentro da universidade, mas as que não puderem ser não devem ser abandonadas. Há mais vida para lá do percurso meramente académico dentro da universidade e também há mais vida para lá da universidade.

O que significa para si fazer parte da comunidade da Escola de Engenharia da Universidade do Minho?

Não lhe atribuo significado especial. É verdade que gosto de pertencer a esta comunidade e trabalho e tenho algum orgulho com a dignidade com que exerço as minhas funções e luto, dentro das minhas modestas possibilidades, por uma academia melhor. Mas este amor, como todos os nossos amores, é, sobretudo, circunstancial.  

 

Atualizado a 28-07-2026 16:00