Dia Nacional do Estudante: gerações em diálogo reforçam o valor da liberdade e da participação académica
Ana Marques ⠿ 24-03-2026 10:00
A conversa na Universidade do Minho juntou Pedro Arezes, Alberto Martins e Luís Guedes para refletirem sobre gerações, liberdade e participação académica.
A Universidade do Minho assinala o Dia Nacional do Estudante, celebrado a 24 de março, com uma conversa que cruzou gerações e experiências marcantes da vida académica em Portugal. O encontro, conduzido pelo reitor, Pedro Arezes, contou com a participação de Alberto Martins – figura central da crise académica de 1969 – e de Luís Guedes, atual presidente da Associação Académica da UMinho.
O encontro, de caráter descontraído, decorreu a 16 de março, na sede da Associação Académica, em Azurém (Guimarães), e resultou num exercício de memória e reflexão. Recordou-se a coragem das gerações de estudantes dos anos 60, abordaram-se os desafios da atualidade e destacou-se o papel das universidades e dos estudantes no desenvolvimento do país.
Na abertura, o reitor Pedro Arezes enquadrou o momento, lembrando que se trata de “um dia de celebração, que foi um dia de luta e homenagem também às dificuldades e aos obstáculos que os estudantes enfrentaram”, em particular durante a crise académica dos anos 60. O responsável destacou ainda o contraste entre épocas, sublinhando que, apesar das diferenças, persistem desafios como a mobilização estudantil e questões como o acesso ao alojamento ou a saúde mental.
“Tudo seria diferente”: a luta estudantil num tempo de repressão
Ao recordar 1969, Alberto Martins descreveu um contexto profundamente distinto, marcado pela ausência de liberdade e pela necessidade de resistência organizada. Questionado sobre o impacto que as redes sociais poderiam ter tido na altura, foi direto: “Tudo seria diferente”, explicando que, então, “vivíamos na ditadura, uma situação de repressão, polícia política”, onde a comunicação se fazia “ou pelo telefone fixo, ou pelo mensageiro que ia a correr dar a mensagem”.
O antigo dirigente estudantil evocou episódios marcantes, como a greve académica em Coimbra, onde “87% dos 9.200 estudantes” aderiram, e sublinhou a importância da solidariedade: “A palavra de ordem final era solidariedade. Entre todos”.
Sobre o momento em que pediu a palavra perante o Presidente da República, recordou o peso simbólico do gesto: “O problema ao pedir a palavra era vencer o medo”, acrescentando que tinha consciência de representar mais do que a sua posição individual: “Eu era mais do que eu próprio ali. Eu era a honra da academia”.
Entre liberdade conquistada e novos desafios
Do lado da atual geração, Luís Guedes reconheceu o valor histórico dessas lutas, destacando que hoje os estudantes vivem num contexto mais livre. “Sentiria mais falta de não ter palavra”, afirmou, sublinhando que a liberdade de expressão continua a ser um valor central.
Ainda assim, alertou para as mudanças na forma de participação: “A participação nas redes sociais exige apenas, se calhar, alguma reflexão (…) não implica muitas vezes mobilização”, apontando para uma possível “perceção acrescida de participação que pode não ser completamente real”.
Apesar disso, mostrou confiança na capacidade de mobilização das novas gerações: “Se necessário, acredito que os jovens estudantes estão ao nível do necessário para lutar por aquilo que é seu”.
Universidade, sociedade e mudança
A conversa abordou também a evolução do ensino superior em Portugal. Alberto Martins destacou a transformação profunda nas últimas décadas, lembrando que o número de estudantes universitários passou de cerca de 45 mil para 450 mil, e sublinhou o papel das universidades no desenvolvimento do país.
Referindo-se à Universidade do Minho, onde foi presidente do Conselho Geral entre novembro de 2024 e maio de 2025, afirmou ter encontrado “uma grande frescura, um grande arejamento”, considerando-a “filha do 25 de Abril” e um exemplo de renovação do sistema de ensino superior.
Ainda assim, deixou uma reflexão crítica sobre o presente, alertando para o crescimento do individualismo e questionando a capacidade de mobilização coletiva: “Interrogo-me se nesta sociedade individualista haveria condições para uma greve a exames como a de 1969”.
O que não muda: rebeldia, convivência e espírito académico
Apesar das diferenças entre épocas, houve consensos quanto a aspetos que permanecem no espírito estudantil. Luís Guedes destacou “a convivência e a folia” como parte importante do percurso académico, enquanto Alberto Martins foi mais direto: “A rebeldia da juventude não pode mudar. (…) Só assim são futuro”.
Na troca de mensagens entre gerações, o antigo líder estudantil deixou um apelo claro: “Quando a juventude desce à rua, é o futuro que se levanta.” Já Luís Guedes respondeu com um reconhecimento simples, mas significativo: “Obrigado.”
Uma academia de liberdade e participação
A encerrar, Pedro Arezes reforçou a importância de manter viva a participação estudantil e o espírito crítico, sublinhando que “a academia é feita de liberdade, de participação e de espírito crítico”.
Num contexto diferente daquele vivido nos anos 60, o reitor destacou que os desafios permanecem, nomeadamente “garantir condições de estudo dignas, promover o bem-estar, fortalecer a participação” e preservar a capacidade de questionar e transformar a sociedade.
“O futuro da Universidade constrói-se com a vossa voz, a vossa energia e o vosso compromisso com uma Academia mais livre, mais inclusiva e mais solidária”, concluiu.
A conversa será lançada, em exclusivo, às 12h30, no Facebook da Universidade do Minho: https://www.facebook.com/uminhooficial
Atualizado a 24-03-2026 10:00
