Entrevista a Vítor Dias, Diretor Regional do Norte do Instituto Português do Desporto e Juventude
Ana Marques ⠿ 01-04-2026 15:00
Entre o associativismo, o desporto e as políticas públicas, uma visão que defende o acesso de todos à atividade física — dentro e fora das universidades.
Com um percurso marcado pelo associativismo juvenil e pelo desporto, Vítor Dias lidera, desde 2017, a Direção Regional do Norte do Instituto Português do Desporto e Juventude. Nesta entrevista, reflete sobre os desafios da prática desportiva entre os jovens, o papel crescente das universidades na promoção do bem-estar e a necessidade de tornar o desporto mais acessível, inclusivo e presente no quotidiano de todos.
1. Quem é Vítor Dias e como começou a sua ligação ao associativismo e ao desporto?
Já lá vai muito tempo. Comecei muito jovem no associativismo, por interesse pessoal, mas também por influência familiar. O meu pai estava muito ligado à participação política, social e cívica, o que acabou por me marcar desde cedo.
Sou natural de Vila das Aves e iniciei também cedo a prática desportiva. Estive ligado à Associação Avense, da qual fui presidente ainda com 17 ou 18 anos. Mais tarde, fui presidente da Federação das Associações Juvenis do Distrito do Porto e dirigente da Federação Nacional. Pelo meio, desempenhei vários cargos e funções em diferentes estruturas. Foi um percurso longo no associativismo e no desporto, que me trouxe até às funções que desempenho hoje.
2. O desporto fez parte do seu percurso pessoal ao longo da vida? De que forma essa experiência influenciou a forma como encara hoje as políticas públicas nesta área?
Comecei muito cedo a praticar desporto. Primeiro atletismo, numa altura em que se corria muito na rua, em provas de estrada, e depois o futebol. No meu tempo, os escalões de formação começavam apenas nos iniciados/juvenis — não existiam as escolinhas como hoje.
Tive um percurso de alguns anos como futebolista e cheguei a ser profissional durante dois anos, altura em que me dedicava exclusivamente ao futebol. Essa experiência foi muito importante, porque me transmitiu valores que ficaram para a vida: trabalho de equipa, esforço, dedicação, empenho, saber ganhar e saber perder, abdicar do interesse individual em benefício do interesse coletivo.
Mas não foi só como praticante. Muito jovem, acompanhava o meu pai nas suas atividades enquanto colaborador do clube local, desde a organização da publicidade, passando pela locução e organização dos jogos, até à elaboração de crónicas e reportagens nos jornais. Foi uma experiência bastante enriquecedora e marcante.
Na altura, as dificuldades eram muitas e senti de perto as carências do país, num contexto em que havia ainda muito por fazer. Essa experiência ajuda-me hoje na forma como vejo o papel do Estado nas políticas públicas: o Estado deve garantir igualdade de oportunidades e equidade, sobretudo onde a sociedade civil não consegue chegar. Essa visão resulta muito daquilo que aprendi no desporto e no associativismo.
3. O seu percurso tem estado ligado ao associativismo juvenil e às políticas de juventude. Que momentos ou experiências considera terem sido mais marcantes nesse caminho?
Na altura, havia muito por fazer e as associações tinham um papel central no desenvolvimento das comunidades, seja no desporto, na cultura ou na participação cívica.
Na associação onde estive e de que fui presidente ainda jovem, éramos nós que promovíamos a prática desportiva em várias áreas, como a ginástica ou o voleibol; tudo o que não fosse futebol, já que existia o clube local para essa modalidade.
Organizávamos também iniciativas culturais — saraus de ginástica, jogos florais, feiras do livro — numa época em que o Estado tinha outras prioridades e estas respostas dependiam muito da iniciativa dos cidadãos. Assumíamos essas responsabilidades e fazíamo-lo bem. Foi uma experiência muito marcante no meu percurso.
4. A Região Norte concentra uma parte significativa da população jovem do país. Quais são hoje as principais prioridades da Direção Regional do Norte do IPDJ nas áreas da juventude e do desporto?
Estamos na região mais populosa do país, com 86 municípios na região Norte, que são os cinco distritos tradicionais (Braga, Bragança, Porto, Viana do Castelo e Vila Real). Fomos buscar sete concelhos do norte do distrito de Aveiro, mais dez de Viseu e ainda Vila Nova de Foz Côa, da Guarda; uma grande diversidade territorial, que inclui também assimetrias significativas. Temos uma forte densidade populacional, associativa e desportiva, mas também zonas do interior com maiores dificuldades e desertificadas.
A nossa missão é garantir que todos tenham acesso às mesmas oportunidades. As prioridades passam por fomentar a participação social e cívica dos jovens, o associativismo e o voluntariado, criando condições para que possam construir o seu futuro desde o presente.
No desporto, temos apostado no desporto para todos — não apenas na vertente competitiva, mas também no recreio e no lazer. Desde 2016, têm sido criados programas que apoiam mais diretamente os clubes de base local, promovendo a igualdade de oportunidades, o desporto feminino, o desporto para pessoas com deficiência, para seniores e o desporto como ferramenta de inclusão e coesão social.
Temos ajudado também na requalificação de algumas infraestruturas desportivas, de diferentes modalidades e de forma descentralizada.
5. Qual é atualmente o papel do IPDJ na promoção do desporto entre os jovens, em particular no ensino superior?
O IPDJ tem como missão definir, implementar e avaliar políticas públicas nas áreas da juventude e do desporto, em linha com as orientações governativas.
Sabemos que há uma quebra significativa na prática desportiva na transição para o ensino superior. Para responder a isso, foi criado o programa UAARE, que promove a conciliação da vida académica com a vida desportiva, sobretudo no alto rendimento, que começa no ensino básico e secundário, mas que agora está a ser progressivamente alargado ao ensino superior.
No entanto, falta ainda garantir condições nos campi universitários para a prática desportiva generalizada — não apenas para atletas de alto rendimento, mas para todos os estudantes e também para trabalhadores. Esse é um desafio em que algumas universidades já estão a investir, como é o caso da Universidade do Minho.
6. Como avalia atualmente as políticas públicas de promoção do desporto entre os jovens e de que forma o IPDJ tem procurado reforçar a articulação com autarquias, associações e instituições de ensino superior na Região Norte?
De acordo com a Constituição, compete ao Estado, em colaboração com as federações, clubes, autarquias e outras entidades, a promoção do desporto e da atividade física da população.
Temos procurado trabalhar em proximidade, porque ninguém consegue atuar ou fazer tudo sozinho. A colaboração com entidades locais é essencial para responder às necessidades concretas do território.
O Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo, recentemente lançado, define uma estratégia a 12 anos, com vários eixos e medidas, refletindo a complexidade do setor. Para além da componente visível da competição, existe um trabalho na base que deve ser significativo e que é tarefa de todos, incluindo a organização do setor e as formas de financiamento.
É fundamental clarificar responsabilidades entre os diferentes agentes — autarquias, escolas, clubes, federações, etc. — e reforçar a articulação entre todos. As autarquias são hoje essenciais para a prática desportiva, assim como o papel das escolas e o desporto escolar.
Há ainda um caminho a fazer ao nível da cultura desportiva. É importante valorizar o desporto não apenas como prática, mas como fator de desenvolvimento individual e coletivo, com impacto na saúde, na coesão territorial e na vida das comunidades.
O desporto de competição também deve ser entendido nessa lógica: há vencedores e vencidos, e isso faz parte do processo. Mesmo ao mais alto nível, o desporto é também um espetáculo que pode e deve ser apreciado independentemente dos resultados.
7. Estudos apontam para níveis preocupantes de sedentarismo entre os jovens. Como avalia esta realidade em Portugal?
É um problema real. Temos procurado combatê-lo em articulação com federações, municípios e clubes, mas a resposta tem de começar em casa e na escola.
Está relacionado com hábitos de vida, alimentação, ocupação dos tempos livres e também com a existência de espaços adequados para a prática. Nesse sentido, o espaço público pode ter um papel decisivo e deve ser pensado como um grande “ginásio ao ar livre”.
Portugal tem condições naturais favoráveis, mas ainda pouco aproveitadas. Há uma tendência para valorizar mais as infraestruturas cobertas, quando existe um grande potencial no espaço exterior.
É também importante distinguir entre “desporto na escola” — garantir que todas as crianças se movimentam e desenvolvem competências motoras — e “desporto escolar”, que já implica uma dimensão mais organizada e competitiva.
8. Que estratégias podem ser mais eficazes para aproximar os jovens do desporto e incentivar a prática regular de atividade física?
O desporto está hoje muito centrado na competição desde cedo, o que pode afastar muitos jovens. É importante criar condições para que todos possam praticar, independentemente da sua aptidão e/ou interesse pela competição.
A estratégia deve passar por tornar o desporto acessível a todos, começando pelo brincar e evoluindo depois para formas mais organizadas, respeitando os diferentes ritmos e interesses, a condição de cada um(a) — económica, social, física ou outra — e diversificando a oferta.
9. A saúde mental tem sido uma preocupação crescente entre os jovens e estudantes universitários. De que forma considera que a prática desportiva pode contribuir para o bem-estar psicológico e emocional dos estudantes?
A prática desportiva tem um contributo muito relevante para o bem-estar físico e mental. Funciona como um escape ao stresse e ajuda a prevenir problemas de saúde mental.
No alto rendimento existem desafios específicos associados à pressão competitiva e, por isso, temos também programas de apoio à saúde mental, nomeadamente em parceria com a Cruz Vermelha Portuguesa.
Mas, numa perspetiva mais ampla, o desporto como atividade de lazer e bem-estar físico e mental é fundamental para a qualidade de vida dos jovens.
10. Como caracteriza o panorama do desporto universitário em Portugal e, em particular, na Região Norte?
Tem havido avanços, nomeadamente com uma maior aproximação entre o Estado e as instituições de ensino superior.
Existe uma federação, a FADU, que tem a responsabilidade de desenvolver a vertente mais formal do desporto universitário, com o apoio do Estado, através do IPDJ. Ainda assim, é necessário criar mais condições para que as instituições sejam mais “amigáveis” do desporto, integrando-o como ferramenta de inclusão, participação e bem-estar.
Apesar de existirem os estatutos de estudante-atleta, estes nem sempre são plenamente cumpridos. Por outro lado, há exemplos positivos, como o da Universidade do Minho, que, mesmo não tendo cursos diretamente ligados ao desporto, tem apostado fortemente na prática desportiva.
Tudo depende muito da visão das lideranças das instituições. Num contexto de maior competição pela captação de estudantes no ensino superior, aquelas instituições que oferecerem uma formação mais diversificada, incluindo o desporto, poderão ter vantagens.
11. O desporto universitário tem vindo a assumir um papel cada vez mais relevante na formação integral dos estudantes. Como perspetiva a evolução deste setor em Portugal?
Vejo essa evolução de forma positiva. As instituições que conseguirem criar melhores condições para a prática desportiva serão mais atrativas, incluindo para estudantes-atletas.
Hoje, cada vez mais atletas de alto rendimento ingressam no ensino superior, o que nem sempre aconteceu no passado, quando eram frequentemente obrigados a optar entre a carreira desportiva e académica.
Programas como as UAARE vão contribuir para consolidar esta tendência, mas é importante continuar a desenvolver soluções que permitam conciliar ambas as dimensões, e também assumir a importância do desporto e da formação desportiva como fundamentais na formação integral de todos os cidadãos.
12. A Região Norte conta com várias instituições de ensino superior com forte tradição desportiva. Como avalia o contributo de universidades como a Universidade do Minho para o desenvolvimento do desporto universitário?
É um contributo fundamental. A Região Norte tem várias instituições com tradição nesta área — universidades e institutos politécnicos — que têm desempenhado um papel importante, tanto na prática desportiva como na formação e qualificação de profissionais.
Destaco também a importância da investigação e do conhecimento científico sobre o desporto. Quanto melhor se conhecer o desporto, nas suas diferentes dimensões, melhor se pode intervir. No alto rendimento, por exemplo, os resultados fazem-se muitas vezes por pormenores, e o conhecimento científico e tecnológico é determinante.
Do ponto de vista da prática, as instituições de ensino superior têm evoluído bastante. Já não existe a ideia de que é necessário escolher entre estudar e praticar desporto — hoje há condições para conciliar ambas as dimensões, e esse é claramente o caminho.
13. As infraestruturas são fundamentais para a prática regular de atividade física. Considera que as universidades portuguesas estão hoje bem equipadas neste domínio?
De forma geral, não. Muitas infraestruturas foram concebidas numa altura em que o desporto não era uma prioridade, sendo encarado como algo secundário.
Hoje a realidade é diferente, mas também é preciso reconhecer que existem limitações financeiras. É necessário encontrar soluções que permitam apoiar as universidades na construção ou adaptação de infraestruturas às necessidades atuais.
Mais do que grandes equipamentos, é importante apostar em infraestruturas ágeis, funcionais e sustentáveis, que possam ser bem aproveitadas. Esse é um desafio tanto para as instituições como para o Estado, que deverá criar mecanismos de apoio e financiamento.
14. De que forma o IPDJ pode colaborar com as instituições de ensino superior para reforçar a oferta desportiva nos campi?
O IPDJ pode desenvolver programas e projetos de colaboração, apoiar tecnicamente as instituições e reforçar o financiamento às associações académicas e à FADU, como já acontece.
No entanto, é essencial melhorar a articulação entre todos os intervenientes. Ainda existem algumas barreiras e ideias de separação entre entidades que não fazem sentido.
O caminho passa por reforçar a cooperação e encontrar soluções conjuntas que respondam de forma mais eficaz às necessidades.
15. As universidades podem criar Unidades de Apoio ao Alto Rendimento para apoiar estudantes-atletas na conciliação entre treino, competição e estudo. Que importância atribui a estas unidades?
São fundamentais. Já existia o estatuto de estudante-atleta, mas com limitações, e nem sempre era devidamente aplicado.
As UAARE vêm reforçar esse enquadramento, criando condições mais efetivas para que os atletas de alto rendimento possam conciliar com sucesso a carreira académica e desportiva.
Os dados disponíveis, sobretudo ao nível do ensino secundário, mostram que estas duas dimensões não são incompatíveis — pelo contrário, reforçam-se mutuamente. Competências como concentração, disciplina, resiliência e gestão de prioridades são úteis tanto no estudo como no desporto. Os resultados têm sido muito animadores nas duas dimensões.
16. O IPDJ abriu recentemente as candidaturas para a 4.ª edição do Selo Estudante-Atleta. Que objetivos estão associados a esta distinção?
O objetivo é valorizar e responsabilizar as instituições, incentivando-as a integrar o desporto e a atividade física na sua estratégia.
Já várias instituições aderiram e têm vindo a renovar esse reconhecimento. O que se pretende é que o desporto passe a ser encarado como uma prioridade e integrado nos planos estratégicos de formação e qualificação dos estudantes.
17. A promoção das carreiras duais tem vindo a ganhar destaque. Que importância atribui a este modelo?
É um modelo fundamental. Portugal tem sido reconhecido como exemplo de boas práticas nesta área, sobretudo com o programa UAARE, que já recebeu distinções internacionais.
Ainda assim, é necessário reforçar o envolvimento das instituições de ensino superior, das federações, dos clubes e das autarquias, criando mais apoios para os estudantes-atletas.
Há também outras dimensões a considerar, como o pós-carreira desportiva, que começa a ganhar relevância e para a qual já existem algumas possibilidades e estão a ser pensadas novas respostas.
18. Porque é que, sabendo-se dos benefícios das pausas ativas e do exercício em contexto laboral, estas medidas continuam a ser pouco implementadas nas universidades?
Por um lado, porque é uma questão cultural e de mentalidade (falta de reconhecimento da importância do desporto e do exercício físico em todos os contextos). Por outro lado, falta ajustar (criar) condições técnicas e logísticas para o efeito e inserir isso nas rotinas organizacionais e também individuais.
19. Se pudesse deixar uma mensagem aos estudantes universitários sobre a importância do desporto no seu dia a dia, qual seria?
O desporto é fundamental enquanto ferramenta de desenvolvimento pessoal, contribuindo para o bem-estar físico e mental.
Ajuda a enfrentar os desafios do dia a dia com mais equilíbrio, promove o bem-estar e contribui para uma formação mais completa. Não é apenas a prática em si, mas todo o processo associado ao desporto, com aspetos que fazem a diferença na formação integral de cada indivíduo.
Atualizado a 01-04-2026 15:00
