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Entrevista ao Presidente da Escola de Engenharia, António Vicente

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Entrevista ao Presidente da Escola de Engenharia, António Vicente

Ana Marques ⠿ 30-07-2026 12:00

António Vicente: “Escolher engenharia é escolher estar no centro da construção de soluções para os grandes problemas do nosso tempo”.

A Escola de Engenharia da Universidade do Minho é atualmente a maior escola da instituição e uma das principais referências nacionais no ensino e na investigação em engenharia. Nesta entrevista, o presidente da Escola, António Vicente, fala sobre os desafios da formação de futuros engenheiros, a inteligência artificial, a sustentabilidade, a ligação às empresas, a internacionalização e a visão estratégica para os próximos anos.

 

A Escola de Engenharia é atualmente a maior escola da Universidade do Minho. Como caracteriza a sua posição no panorama nacional do ensino e da investigação em engenharia?

"A Escola de Engenharia da UMinho é hoje uma referência nacional, não apenas pela sua dimensão, mas pela combinação entre qualidade científica, ligação ao tecido empresarial e capacidade de formar profissionais preparados para os desafios contemporâneos".

A Escola tem procurado afirmar-se como motor de desenvolvimento para a UMinho, para a região e para o País, associando excelência científica e inovação tecnológica a um ensino diferenciador, assente em práticas inclusivas e no desenvolvimento de competências técnicas e pessoais. Essa posição de referência resulta também de um trabalho continuado de aproximação a instituições internacionais de excelência e ao Consórcio de Escolas de Engenharia, reforçando o seu peso no panorama nacional. 

 

Quais considera serem hoje os principais fatores distintivos da Escola de Engenharia da UMinho?

Destacaria quatro dimensões, que correspondem também aos eixos centrais da nossa visão estratégica: inovação, sustentabilidade, inclusão e colaboração. Na prática, isto traduz-se numa forte ligação entre ensino e investigação de fronteira, numa cultura de proximidade com o tecido empresarial e as interfaces tecnológicas da UMinho, numa aposta clara na internacionalização e num compromisso com valores éticos, sociais e de sustentabilidade em toda a atividade da Escola. A isto soma-se a diversidade científica dos seus departamentos, que permite abordagens multidisciplinares verdadeiramente diferenciadoras no panorama do ensino da Engenharia em Portugal.

 

De que forma a Escola tem evoluído para responder às profundas transformações tecnológicas e sociais das últimas décadas?

A Escola tem procurado acompanhar de forma ativa as transformações com que nos temos deparado, através da integração progressiva de tecnologias emergentes, como a inteligência artificial, a internet das coisas e big data, no exercício da engenharia, bem como através da consolidação de modelos híbridos de ensino, que combinam presença física e atividades a distância. Paralelamente, tem reforçado a dimensão ética, crítica e de pensamento holístico na formação dos estudantes, reconhecendo que os desafios atuais — conflitos, alterações climáticas, dependência tecnológica, escassez de recursos, urbanização acelerada — exigem engenheiros capazes de ir além da componente técnica.

Esta evolução reflete-se também na forma como revemos e atualizamos continuamente os nossos cursos e metodologias de ensino, e também na forma como encaramos hoje a diversidade e a inclusão como fatores de enriquecimento da experiência formativa.

 

O que procuram atualmente os estudantes quando escolhem um curso de engenharia?

Os estudantes procuram cada vez mais uma formação que combine rigor técnico-científico com aplicabilidade prática e empregabilidade, mas também flexibilidade, contacto direto com o mundo empresarial e oportunidades de desenvolvimento pessoal, não apenas técnico. Notamos um interesse crescente pela conectividade digital e pela transformação tecnológica do dia a dia, o que torna os cursos de engenharia e tecnológicos particularmente atrativos para as camadas mais jovens. Ao mesmo tempo, valorizam ambientes que estimulem a criatividade, a curiosidade, o empreendedorismo, a capacidade de tomar iniciativas e decisões — competências que procuramos desenvolver de forma transversal, em colaboração com parceiros como a EPIC Junior, a IEEE UMinho Student Branch, a AAUM, os nossos alumni e a Ordem dos Engenheiros.

 

Os cursos da Escola de Engenharia contam, no presente ano letivo, com 1324 alunos bolseiros e 366 alunos alojados em residências da UMinho. Como vê a dimensão da Ação Social repercutir-se na vivência académica dos estudantes de cursos de Engenharia e que diagnóstico faz do alcance da Ação Social no Apoio ao Estudante? Os números/taxas de abandono nos vossos cursos poderão passar, na sua perspetiva, também por aqui?

A dimensão da Ação Social é naturalmente uma componente estrutural, e não apenas secundária, no sucesso académico. Um estudante com condições de alojamento e apoio financeiro estáveis tem mais capacidade de concentração, de participação em atividades extracurriculares e de permanência no curso. Acredito que alguns casos de abandono poderão estar relacionados com dificuldades socioeconómicas, pelo que continuaremos a considerar prioritário o reforço da articulação com a Ação Social da UMinho, bem como a melhoria das condições de acolhimento aos novos estudantes. No entanto, sabemos que o abandono é multifatorial — associa-se também a questões de adaptação pedagógica, de orientação vocacional e de exigência dos primeiros anos — pelo que a resposta não pode ser apenas de natureza social, mas também pedagógica e de acompanhamento próximo dos estudantes.

 

Como tem evoluído a procura pelos diferentes cursos da Escola e que tendências têm observado nos últimos anos?

Temos observado uma atratividade crescente dos cursos de engenharia e tecnológicos, em geral associada ao interesse dos mais jovens pela transformação digital e pela conectividade contínua. Simultaneamente, notamos uma procura cada vez mais informada, em que os candidatos valorizam a empregabilidade, a ligação ao tecido empresarial e a possibilidade de experiências internacionais desde cedo no percurso académico. As colocações do último ano ilustram bem esta tendência: cursos como Engenharia Física (85%), Design e Marketing de Moda (79%) e Engenharia Aeroespacial (77%) destacaram-se pela elevada percentagem de estudantes colocados em 1.ª opção. A qualidade dos candidatos é igualmente notória — em Engenharia Aeroespacial, o último colocado entrou com 188,5 valores, e cursos como Engenharia e Gestão Industrial (169,5), Engenharia Mecânica (159,8), Engenharia Biomédica (156,8) e Design e Marketing de Moda (151,5) registaram igualmente notas de entrada muito competitivas.

 

Num contexto de diminuição demográfica e crescente concorrência entre instituições, quais são os principais desafios na captação de novos estudantes?

O principal desafio é conseguirmos afirmar a diferenciação da Escola num contexto cada vez mais competitivo, marcado pela diminuição demográfica e pela consequente redução do número de potenciais candidatos. Para isso, temos vindo a reforçar a proximidade com escolas da região, através da dinamização de atividades de divulgação científica e tecnológica, dias abertos, oficinas de experimentação tecnológica, concursos de ideias e ações de orientação vocacional dirigidas particularmente a estudantes do Ensino Secundário, bem como na valorização do testemunho da nossa rede de alumni como elemento inspirador e motivador para novos estudantes. Outro desafio central é comunicar de forma eficaz e diferenciada a nossa oferta educativa, nomeadamente através de uma estratégia multicanal de comunicação, abrangendo também a oferta de que já dispomos de mestrados lecionados integralmente em língua inglesa para captar públicos internacionais.

 

A inteligência artificial está a transformar praticamente todos os setores de atividade. Que impacto prevê para a formação em engenharia nos próximos anos? Como é que a Escola procura preparar os seus estudantes para profissões que, em muitos casos, ainda nem existem?

"A inteligência artificial está já a transformar, e vai transformar profundamente, a forma como se ensina e se pratica engenharia", ...

exigindo uma capacitação transversal de estudantes e docentes no domínio destas tecnologias. Mais do que ensinar ferramentas específicas, que rapidamente se tornam obsoletas, o essencial é dotar os estudantes de capacidade crítica, domínio das tecnologias digitais e competências para atuarem como agentes de inovação nas organizações. Isto passa por integrar a investigação no ensino, focando-o na descoberta pela experimentação e na procura autónoma de conhecimento, e por aproximar continuamente o "mundo real" do ambiente académico, através de colaboração estreita com parceiros empresariais, projetos conjuntos e laboratórios modernizados. A Escola tem procurado antecipar estas transformações, considerando a necessidade de preparar os nossos estudantes para profissões e desafios que, em muitos casos, ainda estão a emergir.

 

Considera que a IA representa sobretudo uma oportunidade ou um desafio para os futuros engenheiros? Como está a Escola de Engenharia a integrar a inteligência artificial nos seus processos de ensino, investigação e inovação?

Vejo a IA sobretudo como uma oportunidade, embora exija uma resposta institucional responsável quanto aos riscos e desafios que lhe estão associados. Para que os futuros engenheiros sejam capazes de compreender, utilizar e avaliar criticamente estas tecnologias, a sua integração na Escola deve desenvolver-se em três dimensões: no ensino, através da incorporação progressiva de ferramentas e metodologias de IA nos processos de ensino-aprendizagem; na investigação, reforçando o posicionamento da Escola em domínios científicos de vanguarda, nomeadamente a inteligência artificial, a ciência de dados e as suas aplicações na engenharia; e na inovação, promovendo a colaboração com empresas parceiras e com as interfaces tecnológicas da UMinho, para transformar conhecimento em soluções com impacto. Paralelamente, importa reforçar a dimensão ética da inovação tecnológica, garantindo que o progresso permanece ao serviço das pessoas e da sociedade.

 

Para além da inteligência artificial, que outras áreas tecnológicas considera que terão um impacto particularmente relevante na próxima década?

Destacaria a ciência de dados, as tecnologias e soluções de adaptação às alterações climáticas (incluindo a interface entre a engenharia e as ciências biológicas), a mobilidade sustentável e domínios estratégicos como o Espaço, o Mar e os recursos minerais emergentes — áreas onde procuramos reforçar o envolvimento e posicionamento institucional da Escola, em linha com prioridades da estratégia nacional.

A par disto, a Defesa e a Segurança assumem-se hoje como áreas estratégicas de crescente relevância. Por um lado, a Europa procura reindustrializar-se, produzindo mais internamente e reduzindo a dependência de terceiros; por outro, cresce a procura de autonomia estratégica neste domínio, nomeadamente ao nível de sistemas críticos, tecnologias de defesa e autonomia tecnológica. Estas duas tendências encontram-se já a gerar a procura por competências de engenharia em áreas até agora pouco exploradas.

 

As questões da sustentabilidade estão hoje no centro das políticas públicas e empresariais. Que papel pode a engenharia desempenhar na resposta aos desafios ambientais e climáticos e de que forma é que esta preocupação se reflete na investigação e nos projetos desenvolvidos na Escola?

A engenharia tem um papel central na resposta aos desafios ambientais e climáticos — seja no desenvolvimento de materiais e soluções tecnológicas mais eficientes e sustentáveis, seja na forma como as próprias instituições gerem os seus recursos. Na Escola, a sustentabilidade é promovida de forma transversal: no ensino e na investigação, mas também na prática operacional, incluindo a gestão energética, com uma preocupação crescente em avançar também para uma gestão mais estruturada de resíduos e para a definição de indicadores de desempenho ambiental. Há uma preocupação em debater e propor soluções de mobilidade para acesso aos campi que sejam mais eficazes e ambientalmente sustentáveis, bem como medidas de redução dos custos energéticos, incluindo o recurso a fontes de energia alternativas.

 

A ligação ao tecido empresarial é uma das marcas da Escola de Engenharia. Como avalia a evolução desta relação ao longo dos anos?

A relação da Escola com o tecido empresarial constitui uma dimensão estruturante da sua identidade desde a sua génese, tendo vindo a consolidar-se e a ganhar maior expressão ao longo do tempo, em resposta à crescente necessidade de recursos humanos qualificados e de conhecimento científico e tecnológico orientado para os desafios da indústria. Esta proximidade está, aliás, espelhada na composição do nosso Conselho Consultivo, que integra líderes de empresas de referência — como a Casais, o CTS Group, a Accenture Portugal, a Lameirinho ou a NEADVANCE — a par de representantes das unidades de interface, como o CCG, o PIEP, o CVR, a Fibrenamics e a TecMinho. Por outro lado, a iniciativa do Dia do Emprego tem-se revelado como uma atividade de referência, desenhada para servir tanto os nossos estudantes como as empresas nossas parceiras, que traz anualmente à Escola de Engenharia quase uma centena de empresas e entidades parceiras, com milhares de propostas de emprego e estágio e a possibilidade de interação direta que permite a todos os intervenientes conhecerem-se mutuamente, esclarecer dúvidas e perspetivar o futuro.

 

De que forma as empresas influenciam atualmente a formação e a investigação desenvolvidas na Escola?

As empresas contribuem de forma relevante para a dinâmica da Escola, tanto ao nível da formação como da investigação. As necessidades e oportunidades da indústria levam a Escola a ajustar continuamente a sua oferta formativa às exigências do mercado e à evolução tecnológica. Esta relação traduz-se, na prática, em estágios, projetos colaborativos, seminários extracurriculares e programas de formação complementares. A indústria pretende cativar o interesse dos recursos humanos qualificados através de diversos graus de envolvimento, começando por propor programas de estágio e indo até ao financiamento da formação dos estudantes através da concessão de bolsas para pagamento de propinas.

Ao nível da investigação, esta relação assume particular importância e formaliza-se através de doutoramentos em ambiente empresarial, colaborações orientadas para a resolução de problemas concretos da indústria, e parcerias em que as empresas disponibilizam produtos e equipamentos para a modernização e criação de laboratórios.

 

Que importância têm as spin-offs, as startups tecnológicas e a transferência de conhecimento na missão da Escola?

Têm uma importância cada vez mais central. Promovemos ativamente a criação de spin-offs e start-ups com base no conhecimento e tecnologia desenvolvidos no seio da EEUM e procuramos reforçar continuamente a cooperação com a TecMinho para que esta dimensão seja cada vez mais eficaz. Esta vertente está também associada à salvaguarda da Propriedade Intelectual e Industrial — fomentando o registo de patentes e outras formas de proteção de ideias e protótipos — reforçando o papel da Escola não apenas na criação de conhecimento, mas na sua efetiva valorização económica e social. Promovemos igualmente a submissão de candidaturas conjuntas - empresas e estudantes dos Programas Doutorais a bolsas de doutoramento em contexto empresarial, nomeadamente no ecossistema de spin-offs da UMinho, estreitando a ligação entre a investigação académica e o tecido empresarial.

 

A internacionalização é uma dimensão cada vez mais relevante no ensino superior. Quais são hoje as principais apostas da Escola nesta área?

As principais apostas passam pelo aumento progressivo da oferta de ensino em língua inglesa, pela definição de parceiros estratégicos a nível europeu e global com quem seja prioritário estabelecer acordos de cooperação institucional, e pela exploração da possibilidade de lançar Cátedras focadas em áreas estratégicas, ocupadas por personalidades internacionais de reconhecido mérito. É de destacar a existência de sete cursos de mestrado integralmente lecionados em língua inglesa para captar públicos internacionais. Procuramos também alargar o leque de oportunidades para os estudantes através de mais cursos em cotutela e graus duplos, e fomentar a participação de estudantes, docentes e pessoal técnico, administrativo e de gestão em programas como o Erasmus, o Doutoramento Europeu e outras oportunidades de mobilidade internacional.

 

O que torna a Escola de Engenharia atrativa para estudantes, investigadores e parceiros internacionais?

A combinação de excelência científica reconhecida internacionalmente, ligação forte ao tecido empresarial, qualidade da oferta formativa de pós-graduação — pela sua unicidade e caráter multidisciplinar e intersetorial — e um contexto geográfico e regional favorável ao desenvolvimento de parcerias empresariais e tecnológicas. A isto junta-se uma cultura institucional que valoriza a diversidade, a inclusão e a colaboração internacional como pilares estratégicos, e não apenas como objetivos acessórios, e o caráter acolhedor da nossa Região e das Cidades que nos acolhem.

 

Quando imagina a Escola de Engenharia daqui a dez ou quinze anos, quais são as principais transformações que gostaria de ver concretizadas?

Gostaria de ver uma Escola com maior autonomia e flexibilidade na tomada de decisão, sempre ancorada no modelo de coesão e solidariedade da UMinho com as restantes unidades orgânicas; com instalações modernas e infraestruturas de apoio adequadas em todos os campi; uma comunidade docente fortalecida e renovada de forma progressiva e sustentada; uma oferta formativa fortemente internacionalizada; uma estrutura orgânica adaptada às realidades e desafios atuais e futuros, que sirva de alicerce a uma Escola mais ágil e competitiva; e um ecossistema de inovação consolidado, em que a Escola seja reconhecida como centro gravítico de um verdadeiro hub de inovação regional e nacional. Acima de tudo, gostaria que continuasse a ser motivo de orgulho e de sentido de pertença para todos os que a compõem — estudantes, docentes, investigadores e pessoal técnico, administrativo e de gestão.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos jovens que estão a ponderar seguir uma carreira na área da engenharia?

Que a engenharia de hoje vai muito além do domínio técnico: exige pensamento crítico, criatividade, ética e capacidade de trabalhar em equipas multidisciplinares para responder a desafios verdadeiramente complexos, das alterações climáticas à transformação digital. Escolher engenharia é escolher estar no centro da construção de soluções para os grandes problemas do nosso tempo.

"Escolher a Escola de Engenharia da UMinho é integrar uma comunidade que alia exigência científica, proximidade com o mundo empresarial e uma visão internacional, preparando não apenas profissionais competentes, mas também líderes capazes de contribuir para um mundo melhor, mais ético e mais sustentável. Porque Tomorrow needs engineering".

Atualizado a 29-07-2026 10:00