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Entrevista ao Reitor da UMinho, Pedro Arezes

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Entrevista ao Reitor da UMinho, Pedro Arezes

Ana Marques ⠿ 25-02-2026 15:00

Pedro Arezes nasceu em Barcelos, em 1972, residindo em Guimarães há mais de 30 anos. É licenciado em Engenharia de Produção e doutorado em Engenharia de Produção e Sistemas pela UMinho, onde desenvolveu a sua carreira académica desde 1995, sendo professor catedrático no Departamento de Produção e Sistemas da Escola de Engenharia. Foi Presidente desta Escola entre 2019 e 2025 e Diretor Nacional do Programa MIT Portugal durante quase uma década. Coordenou mais de 50 projetos de investigação nacionais e internacionais e publicou mais de 150 artigos científicos nas áreas da ergonomia, fatores humanos e segurança. Pedro Arezes tomou posse como 10º Reitor da UMinho a 3 de dezembro de 2025. Com mais de 30 anos de ligação à UMinho, assume este novo ciclo de liderança com foco nas pessoas, na simplificação administrativa, na qualidade do ensino e na projeção internacional da Universidade.

 

Quem é Pedro Arezes, hoje, enquanto Reitor da Universidade do Minho?

Pessoalmente, continuo a ser exatamente o mesmo de antes de assumir estas funções… talvez um pouco mais cansado às vezes (risos), porque a agenda é claramente mais exigente e a responsabilidade é enorme. Estamos a falar de uma comunidade com mais de 25 mil pessoas, e isso sente-se todos os dias.

Mas, no essencial, não mudei. Continuo a valorizar muito a proximidade. Gosto de estar nos campi, de falar com estudantes, docentes, investigadores, técnicos e administrativos. Gosto de ouvir. Diria até que uma parte central do meu papel é essa: escutar, criar confiança e envolver uma comunidade tão diversa num projeto comum. Esse é talvez o maior desafio, conseguir mobilizar e motivar todos em torno daquilo que queremos para a UMinho.

 

Tornou-se o 10.º Reitor da UMinho após mais de 30 anos de ligação à Instituição. O que o levou a avançar com esta candidatura neste momento específico da Universidade?

Diria que tudo começou com um sentimento muito forte de gratidão. Tenho mais de 30 anos de ligação à UMinho, cresci aqui enquanto docente, investigador e gestor, e senti que podia ser o momento certo para retribuir aquilo que a Universidade me deu.

Foi uma decisão muito ponderada. Valorizo muito a minha vida familiar e tenho uma filha pequena, com cinco anos, o que naturalmente pesa numa escolha desta dimensão. Mas, ao mesmo tempo, senti que estou numa fase da vida em que consigo conjugar a experiência acumulada, a capacidade de trabalho e a maturidade necessárias para assumir esta responsabilidade.

Também me pareceu que a Universidade estava a chegar ao fim de um ciclo e que precisava de uma nova energia, de um novo impulso. Fui percebendo que havia colegas que acreditavam que eu poderia ter o perfil certo para esse momento. No início estive reticente porque tinha plena consciência da exigência do cargo. Mas o apoio foi surgindo de forma muito espontânea, quase orgânica, e houve um momento em que deixei de sentir que era apenas uma decisão pessoal. Passou a ser um compromisso com um conjunto alargado de colegas e com a própria instituição. Esse apoio, sentido de forma muito genuína, foi decisivo para avançar.

 

Ser Reitor é o maior desafio profissional que alguma vez se impôs?

Sem dúvida. Ao longo dos anos fui assumindo várias responsabilidades de gestão e liderança que me deram uma preparação sólida para estas funções. Desde os dois mandatos como presidente da Escola de Engenharia até à direção nacional do programa MIT Portugal, fui acumulando experiência, aprendendo a decidir, a gerir equipas, a planear a médio e longo prazo. Tudo isso foi muito importante.

Agora, dito com toda a franqueza, ser Reitor é de outra dimensão. A complexidade das decisões, a diversidade de temas que chegam todos os dias, a intensidade da agenda… tudo isso coloca o nível de exigência num patamar claramente superior.

E há ainda um aspeto que sinto muito: a comunidade académica da UMinho tem expectativas elevadas em relação ao Reitor e à equipa reitoral. Isso aumenta o sentido de responsabilidade. Eu lembro-me disso todos os dias. E procuro olhar para essa exigência não como um peso, mas como um estímulo constante para fazer mais e melhor.

 

De que forma o seu percurso académico, científico e de liderança influenciou a visão que tem hoje para a Universidade do Minho?

O meu percurso foi sendo construído com muita naturalidade e ao longo de vários anos, passando por diferentes papéis dentro da própria Universidade. Fui estudante, depois docente, investigador e mais tarde assumi funções de direção. Isso deu me uma perspetiva muito abrangente da UMinho, não apenas do ponto de vista académico, mas também humano e organizacional. Conheço a instituição por dentro, nas suas várias dimensões.

A experiência internacional também teve um peso grande. Recordo com particular significado o período em Delft, na Holanda, onde tive o primeiro contacto prolongado com um contexto internacional muito dinâmico. Mais tarde, as estadas em Boston/Cambridge, em momentos distintos, voltaram a expor-me a outras culturas científicas e institucionais. Isso abriu-me horizontes, permitiu-me comparar modelos e perceber diferentes formas de organizar o ensino, a investigação e a relação com a sociedade.

Quando comecei a assumir cargos de gestão académica, já tinha uma noção mais clara da complexidade de uma universidade moderna. Hoje tudo está interligado, ou seja, ensino, investigação, inovação, transferência de conhecimento, financiamento, serviços e, acima de tudo, pessoas. Governar uma universidade não é apenas decidir. É articular dimensões muito diversas, ouvir, construir consensos e criar condições para que as equipas possam fazer bem o seu trabalho.

No fundo, foi este conjunto de experiências, dentro e fora do país, e o contacto com pessoas que muito me ensinaram e inspiraram, que foi moldando a minha visão. É essa visão que procuro traduzir diariamente nas opções estratégicas e nas prioridades que definimos para a UMinho.

 

Iniciou o mandato em dezembro passado. Passados cerca de dois meses, que diagnóstico faz da Universidade do Minho? Quais são hoje os principais pontos fortes e os desafios mais urgentes? Os objetivos iniciais e as prioridades mantêm-se?

Estes primeiros meses foram muito intensos. Serviram sobretudo para mergulhar nos processos, perceber em que ponto estão, conhecer melhor os constrangimentos e, acima de tudo, ouvir. Fiz questão de reunir com unidades, serviços, estudantes e parceiros externos. Mais do que chegar com soluções pré-definidas, é essencial perceber no terreno o que está a funcionar bem, onde estão as dificuldades e quais são as pressões mais fortes.

O diagnóstico, na verdade, confirma muito do que já tínhamos identificado no Programa de Ação. A UMinho tem uma qualidade científica muito significativa, uma reputação sólida, uma comunidade altamente qualificada e um grande sentido de compromisso. Há uma cultura de trabalho muito enraizada e uma capacidade notável de adaptação, mesmo em contextos exigentes.

Ao mesmo tempo, tornaram-se ainda mais claros alguns desafios estruturais, tais como o subfinanciamento que se arrasta há anos, o envelhecimento dos recursos humanos, as dificuldades na renovação de carreiras, a pressão burocrática crescente sobre docentes, investigadores e serviços, e outras questões que continuam a preocupar nos domínios das infraestruturas e do apoio social aos estudantes, em particular o alojamento.

Quanto às prioridades, mantêm-se plenamente. Diria até que hoje tenho uma consciência ainda mais clara da urgência de avançar em áreas como as pessoas, a simplificação administrativa e a requalificação das infraestruturas. O grande desafio, parece-me, será transformar a visão estratégica em mudanças concretas no quotidiano da Universidade, com realismo, diálogo e sentido de responsabilidade. Sem ruturas desnecessárias, porque não sou de ruturas (risos), mas também sem adiar decisões que são importantes para o futuro da UMinho.

 

A Universidade do Minho assinalou este ano o seu 52.º aniversário. Que balanço faz deste percurso e que marca considera que a UMinho deixou no ensino superior português?

A Universidade do Minho tem um percurso absolutamente notável ao longo destes 52 anos. Sendo uma universidade relativamente jovem no panorama do ensino superior português, conseguiu afirmar-se, em pouco mais de meio século, como uma das principais instituições do país, com reconhecimento dentro e fora de portas.

Desde o início que assumiu um papel pioneiro em várias áreas. A ligação à indústria, a aposta na investigação aplicada, a valorização da transferência de conhecimento, a internacionalização e a proximidade ao território não surgiram por acaso, fazem parte do ADN da instituição. Tenho a sensação que sempre houve uma grande capacidade de inovar, de experimentar caminhos novos e de antecipar tendências.

Ao mesmo tempo, a UMinho afirmou-se como uma universidade aberta, inclusiva e socialmente responsável. Teve um contributo decisivo na qualificação de várias gerações e no desenvolvimento económico, social e cultural da região e do país.

Se tivesse de sintetizar, diria que a marca da UMinho no ensino superior português é a da qualidade com proximidade. E, mesmo sendo uma expressão já muito utilizada, há algo que continua a distinguir a Universidade... a sua capacidade de olhar em frente e de se posicionar antes dos outros relativamente ao futuro.

 

O seu Programa de Ação tem como lema “Transformar o Presente e Inspirar o Futuro”. O que significa, na prática, esta visão para a Universidade do Minho?

Esse lema traduz, acima de tudo, uma ideia de equilíbrio entre responsabilidade e ambição. Parte de uma convicção muito simples que é de considerar que não basta termos uma visão bonita para daqui a dez ou vinte anos. A Universidade só consegue projetar-se no futuro se for capaz de resolver os problemas concretos do presente, nas pessoas, nos processos, nas infraestruturas e nas condições de trabalho.

Quando falamos em “transformar o presente”, estamos a falar de melhorar o funcionamento do dia a dia. Reduzir a burocracia, tornar os serviços mais eficientes, valorizar o trabalho de docentes, investigadores e técnicos, promover o bem-estar dos estudantes e reforçar um ambiente mais justo, transparente e colaborativo. São mudanças muito concretas que têm impacto direto na vida das pessoas.

Já “Inspirar o futuro” é, por sua vez, não perder a dimensão estratégica. É pensar a médio e longo prazo, preparar a Universidade para as transições digital, científica, ambiental e demográfica, e outros desafios futuros das universidades.

No fundo, trata-se de encontrar um ponto de equilíbrio. Não é mudar por mudar. É transformar com sentido, envolvendo a comunidade e garantindo que as mudanças são consistentes e sustentáveis ao longo do tempo.

 

Estará à frente dos destinos da UMinho no período 2025–2029. Quais serão as grandes prioridades da Reitoria neste mandato e quais antecipa serem as maiores dificuldades?

As grandes prioridades deste mandato estão centradas nas pessoas. Nenhuma estratégia funciona se docentes, investigadores e técnicos não se sentirem valorizados, com estabilidade e motivação, incluindo renovação geracional, progressão nas carreiras e bem-estar.

Outra prioridade é modernizar a organização interna, isto é simplificar processos, reduzir burocracia e tornar os serviços mais ágeis, libertando tempo para o ensino, a investigação e a inovação.

Nos planos académico e científico, queremos reforçar a qualidade do ensino, a inovação pedagógica, a internacionalização e a investigação de excelência, consolidando a UMinho como referência europeia. As infraestruturas e a sustentabilidade são também fundamentais, incluindo requalificação de edifícios, equipamentos e alojamento estudantil.

Paralelamente, vamos aprofundar a ligação à sociedade e ao território, promovendo transferência de conhecimento e formação ao longo da vida. Mas estamos conscientes dos desafios mais relevantes, ou seja, subfinanciamento, limitações orçamentais, escassez de recursos humanos e complexidade administrativa. Transformar a Universidade exige equilíbrio entre ambição e realismo, mudanças graduais e diálogo constante.

Finalmente, encaramos a cultura como uma dimensão fundamental da Universidade, tanto para dentro de si mesma e para a comunidade académica como na relação com os territórios em que a UMinho está implantada.

 

A sua equipa reitoral introduziu novas áreas e uma reorganização de pelouros. Quais foram as principais preocupações na constituição desta equipa?

Nesta escolha a prioridade não foi apenas escolher os melhores individualmente, mas formar uma verdadeira equipa. Mesmo que todos sejam brilhantes nas suas áreas de trabalho (e creio que serão), o mais importante era que partilhassem a mesma visão e trabalhassem juntos com o objetivo principal de favorecer a UMinho.

Para além das competências técnicas e académicas, procurei pessoas capazes de dialogar, de assumir responsabilidades partilhadas e de colocar o projeto da Universidade acima de interesses pessoais ou setoriais. Tinha, e tenho, muito claro que a equipa reitoral só funciona bem se houver confiança mútua, transparência e lealdade institucional.

A reorganização dos pelouros teve como objetivo criar áreas coerentes e bem articuladas entre si, evitando sobreposições e assegurando que ninguém trabalhe isoladamente. Houve ainda o cuidado de formar uma equipa plural, com experiências e sensibilidades diferentes.

 

A centralidade das pessoas é um dos eixos estruturantes do seu programa. Que medidas concretas considera prioritárias para promover o bem-estar e a qualidade de vida da comunidade académica?

A centralidade das pessoas não é, pelo menos para mim, um lugar comum. Estou convicto que a qualidade da Universidade depende em larga medida das condições em que vivem e trabalham estudantes, docentes, investigadores e o pessoal técnico, administrativo e de gestão.

A primeira prioridade é a saúde física e mental da comunidade académica, envolvendo programas de apoio psicológico, ações de prevenção, iniciativas para equilibrar vida pessoal e profissional e uma avaliação regular do clima organizacional.

Outra dimensão essencial é a valorização profissional, nomeadamente criar condições para progressão nas carreiras, reduzir a precariedade, reforçar a transparência nos processos de avaliação e reconhecer o mérito. Sentir que o esforço é valorizado e que há perspetivas de futuro faz toda a diferença.

As condições físicas de trabalho e de estudo também são determinantes. Requalificar espaços, melhorar infraestruturas, reforçar acessibilidade, segurança e conforto nos campi tem um impacto direto no dia-a-dia da comunidade.

Para os estudantes, o apoio social no alojamento, na alimentação, no desporto, no acompanhamento académico e psicológico e na integração na vida universitária são áreas cruciais e que merecem uma atenção permanente.

 

Num contexto de limitações financeiras e envelhecimento do corpo docente, como pretende valorizar as carreiras de docentes, investigadores e pessoal técnico, administrativo e de gestão?

A situação não é fácil, em particular não será fácil em 2026. As limitações financeiras/orçamentais e um corpo docente envelhecido, fazem com que as mudanças significativas este ano sejam praticamente inviáveis. Ainda assim, a ambição mantém-se e esperamos, nos próximos exercícios orçamentais, avançar com um plano exigente de renovação e progressão nas carreiras que permita por um lado assegurar que não se perdem competências e áreas chave do conhecimento, e por outro manter docentes e PTAG motivados.

O compromisso passa por trabalhar desde já no planeamento a médio e longo prazo que permita uma gestão transparente dos recursos humanos. Prefiro seguir um caminho mais lento, mas consistente, do que prometer soluções rápidas que depois não sejam exequíveis.

 

Que prioridades define para o ensino na UMinho nos próximos quatro anos, ao nível da qualidade, da inovação pedagógica e dos processos de avaliação?

A primeira prioridade é reforçar a qualidade do ensino, garantindo que todos os ciclos de estudo mantêm padrões elevados e alinhados com as melhores práticas internacionais. Isso passa por uma revisão contínua dos planos curriculares, maior articulação entre unidades e atenção constante à coerência dos percursos formativos.

A inovação pedagógica é também central. Queremos promover metodologias mais ativas e participativas, combinando ensino presencial, digital e híbrido, uso responsável das tecnologias e valorização do trabalho autónomo e colaborativo.

Na avaliação, o objetivo é alinhar melhor os métodos com as competências que queremos desenvolver nos estudantes, valorizando o pensamento crítico, a resolução de problemas, a criatividade e a ética profissional, e não apenas a memorização.

 

Como pode a Universidade do Minho reforçar a sua projeção internacional, tornando a internacionalização uma verdadeira cultura institucional?

A internacionalização torna-se cultura institucional quando está integrada no ensino, na investigação, nos serviços e na governação, e é essa a lógica do Plano de Internacionalização que estamos a elaborar.

A prioridade é passar de um crescimento disperso para uma consolidação estratégica: escolher parcerias de prestígio, reforçar a cooperação europeia e o papel da UMinho na Aliança Arqus, evitando acordos sem impacto real.

No ensino, queremos internacionalizar currículos, alargar a oferta em inglês e criar ambientes multiculturais. Na investigação, consolidar redes internacionais, aumentar a participação em consórcios competitivos e articular com grandes agendas europeias e globais.

A atração e integração de talento internacional é outro eixo, garantindo apoio académico e social para todos. A internacionalização será monitorizada, com indicadores claros e governação partilhada entre Reitoria, serviços e unidades.

 

Ao nível da investigação e inovação, que estratégias considera fundamentais para reforçar o impacto científico e a transferência de conhecimento para a sociedade?

Na investigação, a prioridade é consolidar uma cultura de excelência científica, internacionalizada e competitiva, capaz de produzir conhecimento relevante e reconhecido, aproveitando para definir áreas científicas estratégicas que permitam aumentar a competitividade futura da investigação na Universidade do Minho.

Um eixo central é reforçar o apoio institucional aos investigadores e docentes, ajudando na preparação de candidaturas, na gestão de projetos e na participação em consórcios internacionais, libertando tempo para o trabalho científico.

Por outro lado, a interdisciplinaridade é também estratégica, devendo criar condições para que investigadores de diferentes áreas trabalhem juntos de forma estruturada.

Também queremos reduzir o desfasamento entre qualidade científica e inovação com impacto. A estratégia aposta numa abordagem integrada, ligando investigação, entidades de interface, propriedade intelectual e empreendedorismo num ecossistema institucional. Queremos criar uma cultura de inovação e empreendedorismo que possa induzir a geração sistemática de soluções de elevado impacto socioeconómico, com o envolvimento efetivo dos nossos estudantes, docentes e investigadores.

O reforço da valorização do conhecimento inclui identificar cedo resultados com potencial, desenvolver provas de conceito, maturação tecnológica, licenciamento, colaboração com empresas ou criação de spin-offs. As entidades de interface terão um papel central, com governação clara e separação transparente entre missão institucional e valorização empresarial.

 

O seu programa aposta na simplificação administrativa e numa governação mais transparente e participativa. Que mudanças espera concretizar neste domínio?

A simplificação administrativa e uma governação mais transparente são essenciais para que a Universidade funcione melhor. Uma instituição demasiado burocratizada perde tempo, energia e capacidade de resposta, que deviam ser usadas em tarefas produtivas.

Uma prioridade desde logo identificada, é a de rever e racionalizar procedimentos, eliminando etapas redundantes, harmonizando práticas entre unidades e aproveitando melhor os sistemas digitais, tornando os processos mais claros, rápidos e previsíveis. Isto tem de ser feito pela comunidade, para a comunidade, de forma a garantir que as soluções encontradas são efetivamente as que nos permitirão melhorar o nosso dia a dia.

A modernização dos sistemas de informação é outro eixo: precisamos de plataformas integradas, interoperáveis, seguras e centradas no utilizador, que reduzam tarefas duplicadas e melhorem a qualidade da informação para apoiar a decisão.

Também é fundamental clarificar responsabilidades, para que cada nível da organização saiba exatamente as suas competências, evitando sobreposições e bloqueios.

A participação é igualmente central. Queremos valorizar os órgãos colegiais, reforçar momentos de auscultação e criar canais mais eficazes de diálogo com toda a comunidade académica e entre unidades orgânicas e de serviços.

 

Está em curso o debate sobre a revisão do RJIES e sobre as políticas públicas para o ensino superior. Que papel deve o Governo assumir e que modelo de autonomia considera essencial para o futuro das universidades públicas?

A revisão do RJIES é uma oportunidade para reforçar a autonomia real das universidades públicas, seja nas dimensões financeira, administrativa ou pedagógica.

O Governo deve garantir estabilidade, previsibilidade e equidade no sistema, criando também condições financeiras para que as instituições possam planear, investir e desenvolver projetos estruturantes com segurança.

Defendemos uma governação que combine autonomia com responsabilidade. O modelo ideal é o de universidades públicas autónomas, responsáveis, financeiramente sustentáveis e plenamente integradas nas políticas de desenvolvimento do país.

 

Que papel atribui às Escolas e Institutos na concretização da estratégia global da Universidade?

As Escolas e Institutos são centrais para a concretização da estratégia da Universidade e o cumprimento da sua missão, porque é nelas que se materializam, no dia-a-dia, as políticas de ensino, investigação, inovação e ligação à sociedade.

Logo no início do mandato, reuni com as presidências das Unidades Orgânicas para ouvir diagnósticos, prioridades, constrangimentos e expectativas, e perceber como cada unidade se posiciona face à estratégia global. Essas reuniões foram essenciais para criar confiança, proximidade e corresponsabilização, garantindo que a governação é feita em diálogo com quem está no terreno.

O Programa de Ação aposta na descentralização e no princípio da subsidiariedade, reforçando a autonomia das Unidades Orgânicas, mas sempre com mecanismos de coordenação e coerência institucional. Essa autonomia deve ser acompanhada por distribuição equitativa de recursos e por uma governação transparente, evitando assimetrias e fragmentações da coesão da Universidade.

 

A UMinho tem atualmente cerca de 21 mil estudantes. As novas residências em Guimarães e Braga serão suficientes face às necessidades ou o alojamento universitário continuará a ser um dos principais desafios?

O alojamento continuará a ser, nos próximos anos, um dos principais desafios da UMinho. Atualmente, os SASUM têm quatro residências com cerca de 1.400 camas, que nos parece serem insuficientes face à procura.

As novas residências em Braga e Guimarães representam um investimento estratégico, adicionando 750 e 350 camas respetivamente, quase a duplicar a capacidade atual para cerca de 2.500 camas, o que eleva a taxa de cobertura para cerca de 12%, acima da média nacional de 9%.

Para além das novas construções, é essencial requalificar o parque existente, melhorando conforto, eficiência energética, acessibilidade e condições de habitabilidade. No meu primeiro dia de mandato, visitei pessoalmente a residência de Santa Tecla e, alguns dias depois, a residência de Azurém para perceber estas necessidades no terreno.

A nível das políticas públicas, o aumento do complemento de alojamento para bolseiros é positivo, mas ainda insuficiente. A solução passa, creio, por uma abordagem integrada, ou seja novas residências, requalificação das existentes, reforço da ação social, parcerias externas e articulação com políticas públicas.

 

De que forma a Universidade do Minho pode aprofundar a sua ligação ao território e à sociedade, reforçando a sua missão pública?

A ligação ao território e à sociedade faz parte da identidade da UMinho desde a sua fundação e continua a ser um dos seus maiores ativos.

Um primeiro eixo é aprofundar parcerias com autarquias, entidades públicas, empresas e instituições culturais, sociais e científicas, desenvolvendo projetos que apoiem políticas públicas baseadas em evidência científica. A Universidade deve colocar a sua capacidade científica ao serviço de problemas concretos do território, desde a economia à transição digital e ambiental. Na ligação ao tecido empresarial, queremos continuar a  colaborar no processo de transformação contínuo a que as empresas estão sujeitas, como forma de adaptação aos novos desafios da transformação digital e da sustentabilidade.

A formação ao longo da vida é outro pilar, com cursos curtos, microcredenciais, pós-graduações e programas de requalificação, respondendo às necessidades de atualização de competências de trabalhadores, empresas e instituições, reforçando também a ligação aos alumni.

A dimensão cultural e cívica é igualmente importante. A Universidade deve afirmar-se como espaço aberto, promovendo iniciativas culturais, debates públicos e participando ativamente na vida comunitária.

A presença em redes regionais, nacionais e europeias potencia o impacto territorial, atrai investimento, talento e oportunidades. O objetivo é consolidar a UMinho como uma universidade profundamente enraizada no território, aberta à sociedade e comprometida com um desenvolvimento sustentável, inclusivo e baseado no conhecimento.

 

Que importância atribui às áreas da cultura, da cidadania, do desporto e da responsabilidade social no projeto de futuro da Universidade do Minho? Em particular, existe uma estratégia para reforçar a visibilidade e o papel do desporto universitário, enquanto fator de bem-estar, identidade académica e projeção da Instituição? Como situa os SASUM na prossecução dos desígnios para esta área?

As áreas da cultura, cidadania, desporto e responsabilidade social são parte integrante da formação dos estudantes e da construção de uma comunidade académica saudável, participativa e socialmente comprometida.

A ação cultural da Universidade está a ser renovada, com a reativação do Conselho Cultural, as obras em curso em espaços como o Museu Nogueira da Silva e a Galeria do Paço, a adesão ao programa de “prescrição cultural”, etc. A cultura é central pelo seu valor intrínseco, mas também pela interação produtiva com as áreas do ensino, da investigação e da inovação.

No desporto universitário há uma aposta clara, não só como fator de bem-estar, mas também de identidade académica e projeção externa da UMinho. Queremos consolidar a Universidade como referência, articulando prática desportiva regular, alto rendimento e participação em competições.

Como disse recentemente, por altura da Gala do Desporto dos SAS, essa estratégia inclui apoio aos estudantes-atletas, valorização de resultados desportivos, melhoria de infraestruturas, reforço da cooperação com a Associação Académica e promoção de grandes eventos. O desporto serve também para inclusão, integração dos estudantes, promoção de estilos de vida saudáveis e fortalecimento do sentido de pertença.

Os SASUM têm um papel central, apoiando o bem-estar, a saúde, a alimentação, o alojamento, o acompanhamento psicológico e a promoção de atividades culturais e desportivas. A articulação com a Reitoria é essencial para garantir coerência, eficácia e proximidade na implementação destas políticas.

 

Que mensagem gostaria de deixar à comunidade académica no início deste novo ciclo de liderança?

A minha primeira mensagem é de gratidão e reconhecimento pelo trabalho, dedicação e sentido de missão que estudantes, docentes, investigadores e trabalhadores demonstram todos os dias, muitas vezes em contextos exigentes e com recursos limitados.

Este novo ciclo de liderança não é o projeto de uma pessoa ou de uma equipa, mas sim um projeto coletivo, que só faz sentido com a participação ativa de toda a comunidade académica.

Por isso, gostaria de reafirmar o compromisso com diálogo, proximidade e transparência. As decisões serão tomadas com responsabilidade, mas também com escuta, respeito e vontade de construir consensos. Peço à comunidade que continue envolvida, exigente e participativa, que critique, proponha, colabore e se sinta parte ativa deste percurso.

Da minha parte, comprometo-me a trabalhar com dedicação e humildade, colocando sempre o interesse da Universidade acima de qualquer outro.

Atualizado a 25-02-2026 15:00