Escola de Ciências da UMinho celebrou 51 anos com ambição estratégica e defesa da ciência fundamental
Ana Marques ⠿ 24-02-2026 16:00
Sessão no Teatro Jordão destacou execução do plano de ação, renovação geracional e novo edifício para a Escola.
A Escola de Ciências da Universidade do Minho assinalou ontem, 23 de fevereiro, o seu 51.º aniversário, numa cerimónia no auditório do Teatro Jordão, no campus de Couros, em Guimarães, marcada pelo balanço do caminho percorrido e pela afirmação de uma visão estratégica exigente para o futuro.
A sessão ficou igualmente marcada por um momento de evocação. O reitor da Universidade do Minho, Pedro Arezes, iniciou a sua intervenção recordando o professor José Eduardo Lopes Nunes, membro da comissão instaladora da Universidade, destacando o seu “espírito generoso, profundamente comprometido com o conhecimento, com as pessoas e com o serviço à comunidade”. Recordá-lo, afirmou, é reconhecer “alguém que acreditava no valor transformador da Universidade e que soube honrar com integridade e sensibilidade essa missão ao longo da vida”.
No momento de balanço institucional, o presidente da Escola, José Manuel González-Méijome, revelou que, decorridos dois terços do mandato, a execução média do Plano de Ação ultrapassa os 75%, com quase metade das 70 medidas já plenamente concretizadas. Na investigação, sublinhou o reforço dos incentivos às candidaturas competitivas internacionais, com aumento do número de propostas, do financiamento submetido e dos projetos aprovados. “Temos hoje uma gestão da atividade científica mais profissionalizada”, afirmou, lembrando que é dessa atividade que depende perto de metade dos recursos que a Escola mobiliza diariamente.
No plano pedagógico, destacou a análise crítica da oferta formativa de primeiro ciclo e o lançamento das licenciaturas duplas, classificando-as como “mais um ponto de partida para algo diferente”. A aposta na diversificação da formação pós-graduada e nas microcredenciais, bem como a monitorização sistemática do percurso académico dos estudantes, integram uma estratégia que visa reforçar a atratividade e a competitividade da formação em Ciências.
Dirigindo-se aos novos docentes, investigadores e técnicos recentemente integrados, deixou uma mensagem clara: “Não se acomodem nem por um segundo. Se não gostam do que veem, façam melhor.” E acrescentou: “Não perguntem se se pode fazer. Perguntem como é que se faz.” Para o presidente, a renovação geracional e a valorização das carreiras são condições essenciais para o futuro da Escola, num plano estruturado de contratações e progressões que deverá ser consolidado nos próximos meses.
Entre os eixos estratégicos apontados está o projeto de um novo edifício para a Escola de Ciências, considerado fundamental para responder às exigências da atividade experimental e laboratorial das próximas décadas. “A atividade científica, pedagógica e laboratorial que hoje desenvolvemos exige infraestruturas adequadas, seguras e flexíveis”, afirmou, defendendo que 2026 deverá ser o ano de transformar estudos e intenções “num projeto sólido e mobilizador”.
Pedro Arezes reconheceu a relevância dessa ambição, mas sublinhou a necessidade de realismo. Um investimento dessa natureza, afirmou, “exige financiamento externo significativo e enquadramento em programas nacionais e europeus”. “A ambição mantém-se, e é importante assinalá-la, mas com realismo e transparência”, acrescentou.
Numa reflexão mais ampla sobre o papel da Escola, o reitor defendeu a centralidade da ciência fundamental num tempo em que se exigem respostas rápidas e resultados imediatos. “A ciência fundamental não é um luxo académico, é um bem estratégico”, afirmou, lembrando que muitos dos avanços que hoje sustentam a economia, a saúde ou a tecnologia nasceram de investigações que, no momento em que foram realizadas, não tinham aplicação previsível. “A ciência avança porque alguém pergunta porquê. Não porque alguém imponha à partida para quê.”
O reitor destacou ainda a importância de preservar espaço para a investigação orientada pela curiosidade científica, num contexto de transformação do sistema científico nacional, e sublinhou o contributo da Escola na inovação pedagógica, nomeadamente com os novos graus duplos, concebidos com “criatividade institucional” e vocacionados para percursos formativos mais exigentes e articulados.
Já na reta final da sua intervenção, José Manuel González-Méijome afirmou que o encerramento das comemorações do cinquentenário não representa um ponto de chegada, mas “um ponto de apoio para um novo salto”. A ciência, disse, “corre em pista de fundo, não corre em pista de curto prazo”, mas exige agora “um sprint” que permita reforçar a autonomia estratégica e a capacidade de intervenção da Escola e da Universidade. Num discurso onde cruzou o balanço institucional com notas pessoais sobre o percurso na Universidade, assumiu que “quando chovem assuntos nos departamentos e centros, a presidência está encharcada”.
Pedro Arezes encerrou reafirmando que escolher Ciências é optar por uma formação sólida, exigente e estruturante, capaz de desenvolver pensamento crítico e competências fundamentais num mundo cada vez mais tecnológico e incerto. Celebrar 51 anos da Escola de Ciências, concluiu, é reafirmar um compromisso com “o conhecimento rigoroso, com a ciência fundamental como base e com a inovação responsável como consequência”.
A cerimónia incluiu ainda a entrega de prémios e distinções, momentos musicais e a palestra “Epistemologias visuais e narrativas – a Ciência através da Arte e da Literatura”, por João Paulo André, do Departamento de Química. O programa encerrou com o tradicional corte do bolo de aniversário e momentos de convívio entre a comunidade académica.
Com mais de 2100 estudantes distribuídos por 12 licenciaturas, 13 mestrados e 13 doutoramentos, cinco departamentos e seis unidades de investigação, a Escola de Ciências mantém-se como uma das estruturas nucleares da Universidade do Minho, com forte presença nos campi de Braga e Guimarães.
Entre ambição estratégica e realismo institucional, a sessão evidenciou uma visão convergente quanto ao futuro da Escola de Ciências, assente numa ciência sólida, paciente e estrutural, capaz de responder aos desafios do presente sem abdicar da construção do futuro.
Atualizado a 24-02-2026 16:00
