João Ribeiro: da Administração Pública aos Sistemas de Informação, sem deixar o karaté
Ana Marques ⠿ 30-07-2026 12:00
Natural da Póvoa de Varzim, João Ribeiro construiu todo o seu percurso académico na Universidade do Minho, onde atualmente frequenta o Mestrado em Sistemas de Informação, na Escola de Engenharia. Atleta de karaté, foi distinguido este ano com o Prémio PODIUM de Atleta Masculino do Ano, atribuído na Gala do Desporto da UMinho. Nesta entrevista, fala do caminho que o levou até à Engenharia, da paixão pela modalidade e da exigência de conciliar a formação académica com o desporto de alto rendimento.
É natural da Póvoa de Varzim e realizou todo o seu percurso de ensino superior na Universidade do Minho. O que o levou a escolher a UMinho e o que encontrou aqui que o fez permanecer ao longo dos anos?
Por um lado, havia já uma ligação familiar, porque a minha mãe também estudou na UM, e isso sempre me deu uma perceção muito positiva da instituição. Sentia que era uma universidade de confiança, com qualidade, e acabou por influenciar claramente a minha decisão.
Por outro lado, havia também a questão da proximidade. Sendo da Póvoa, Braga ficava relativamente perto, o que facilitava bastante a transição para o ensino superior. Permitia-me manter algum equilíbrio entre a vida académica e a pessoal, sobretudo numa fase inicial que é sempre exigente.
Além disso, já tinha uma ligação à cidade de Braga por causa do karaté, uma vez que estava inscrito num clube bracarense. Isso acabou por ser um fator importante, porque já me sentia integrado na cidade, tinha rotinas estabelecidas e conseguia conciliar bem a componente académica com o desporto de alto rendimento.
Depois de entrar, aquilo que me fez ficar foi mesmo a qualidade do ensino e o ambiente académico. Ao longo dos anos fui sentindo que estava no sítio certo, com exigência, mas também com uma formação muito prática e alinhada com aquilo que queria para o meu futuro. Por isso, fez todo o sentido dar continuidade ao meu percurso na Universidade do Minho.
O seu percurso académico passou pela Licenciatura em Administração Pública, pelo Mestrado em Economia Industrial e da Empresa e encontra-se agora a frequentar o Mestrado em Sistemas de Informação, na Escola de Engenharia. Como explica esta evolução e o que o motivou a explorar áreas tão distintas ao longo do seu percurso?
O meu percurso académico pode parecer, à primeira vista, um pouco diverso, mas na realidade acaba por ser bastante coerente quando olhamos para o objetivo final. Comecei pela Licenciatura em Administração Pública, que me deu uma base muito sólida ao nível da gestão, da economia e do funcionamento das organizações, especialmente no contexto do setor público.
Com o tempo, percebi que tinha um interesse crescente pela componente mais económica e estratégica das empresas, o que me levou a prosseguir estudos no Mestrado em Economia Industrial e da Empresa. Foi uma evolução natural, no sentido de aprofundar conhecimentos mais analíticos, ligados à tomada de decisão, estrutura de mercados e comportamento empresarial.
Mais recentemente, surgiu a decisão de avançar para o Mestrado em Sistemas de Informação. Esta escolha está muito alinhada com aquilo que tenho vindo a fazer, quer a nível académico, quer a nível profissional. A crescente importância dos dados, das ferramentas tecnológicas e da análise de informação nas organizações levou-me a querer complementar a minha formação com competências mais técnicas nesta área.
No fundo, não vejo estas áreas como distintas, mas sim como complementares. Administração, economia e sistemas de informação acabam por convergir muito naquilo que é a realidade atual das organizações, onde é cada vez mais importante saber interpretar dados, apoiar decisões e otimizar processos com base em informação rigorosa.
Assim, este percurso reflete sobretudo uma lógica de evolução e especialização progressiva, sempre no sentido de me adaptar melhor às exigências do mercado e de criar uma base de competências mais completa e diferenciadora.
Como tem sido a experiência de estudar na Escola de Engenharia? O que mais valoriza nesta Escola e na formação que tem recebido?
A experiência de estudar na Escola de Engenharia tem sido bastante enriquecedora, sobretudo porque me permitiu sair um pouco da minha zona de conforto e desenvolver competências mais técnicas. Sendo uma área com uma abordagem diferente daquela que tinha anteriormente, obrigou-me a adaptar-me e a ganhar novos métodos de pensamento, mais orientados para a resolução prática de problemas.
Aquilo que mais valorizo na Escola de Engenharia é precisamente essa componente prática e aplicada. Existe um foco muito forte em ferramentas, em metodologias e em saber fazer, não apenas em compreender conceitos teóricos. Isso acaba por ser extremamente relevante, especialmente na área dos sistemas de informação, onde a capacidade de aplicar conhecimentos no contexto real faz toda a diferença.
Outro aspeto que destaco é a exigência. Apesar de ser desafiante, sinto que essa exigência contribui diretamente para o desenvolvimento de competências sólidas, tanto a nível técnico como a nível de organização e capacidade de trabalho. Obriga-nos a ser mais disciplinados e a ter uma abordagem mais metodológica.
A Escola de Engenharia é frequentemente associada à exigência e ao rigor académico. Como tem conseguido conciliar essa exigência com a preparação e participação em competições desportivas de alto nível?
Conciliar a exigência da Escola de Engenharia com o desporto de alto rendimento tem sido, sem dúvida, um desafio, mas também uma experiência muito enriquecedora. Acaba por exigir um nível elevado de disciplina, organização e gestão de tempo, que são competências fundamentais tanto no contexto académico como no desportivo.
No meu caso, o karaté sempre fez parte da minha rotina, pelo que já estou habituado a lidar com horários exigentes e a definir prioridades. Isso ajudou-me bastante a estruturar o meu dia-a-dia, de modo a conseguir equilibrar treinos, competições e estudo. Muitas vezes implica algum sacrifício pessoal e uma gestão muito rigorosa do tempo, mas acaba por compensar pelos resultados que se vão alcançando em ambas as áreas.
No fundo, mais do que uma dificuldade, vejo esta conciliação como uma mais-valia. Permitiu-me desenvolver um perfil mais completo, não só a nível técnico e académico, mas também a nível pessoal, o que considero diferenciador tanto no presente como no futuro.
Este ano foi distinguido com o Prémio PODIUM de Atleta Masculino do Ano, na Gala do Desporto da Universidade do Minho. O que representou para si este reconhecimento?
Receber o Prémio PODIUM de Atleta Masculino do Ano foi, acima de tudo, um reconhecimento muito especial para mim. Não apenas pelo resultado em si, mas por tudo aquilo que está por trás, muitas vezes longe do que é visível.
Este tipo de distinção acaba por ter um significado diferente porque surge no contexto universitário, onde temos de conciliar várias exigências. No meu caso, representa muito essa capacidade de equilibrar o percurso académico com o desporto de alto rendimento, e de conseguir manter um compromisso sério com ambos.
Ao mesmo tempo, é também um reconhecimento que não vejo como exclusivamente individual. Há todo um conjunto de pessoas que contribuem para este percurso como treinadores, colegas de equipa e família, que acabam por fazer parte deste resultado. Por isso, acaba por ser um prémio partilhado.
Por fim, encaro esta distinção não como um ponto de chegada, mas como um incentivo para continuar a evoluir. Funciona como uma validação do caminho que tenho vindo a seguir, mas também como uma responsabilidade acrescida para manter o nível e continuar a representar bem a universidade e o desporto.
Ao longo dos últimos anos representou a UMinho em diversas competições nacionais e internacionais, conquistando medalhas e alcançando resultados de destaque. Quando olha para o seu percurso desportivo, quais considera terem sido os momentos mais marcantes?
Quando olho para o meu percurso desportivo, há vários momentos que acabam por se destacar, não só pelos resultados em si, mas pelo significado que tiveram em cada fase.
Diria que um dos aspetos mais marcantes foi precisamente a oportunidade de representar a Universidade do Minho em competições, tanto a nível nacional como internacional. Esse momento de entrar em competição não só por mim, mas também pela instituição, acaba por ter um peso diferente. Traz um sentido de responsabilidade e de orgulho acrescido, que é difícil de explicar.
Depois, claro, as conquistas e as medalhas acabam por ser momentos importantes, porque são o reflexo direto de muito trabalho ao longo do tempo. No entanto, mais do que os resultados isolados, aquilo que mais valorizo é a consistência, conseguir manter um nível elevado ao longo dos anos, mesmo conciliando com as exigências académicas e profissionais.
Outro ponto que considero muito marcante são todos aqueles momentos menos visíveis: os treinos intensos, a preparação antes das competições, as derrotas e a forma como se aprende com elas. Muitas vezes é nesses momentos menos positivos que se dá o maior crescimento, tanto a nível desportivo como pessoal.
Por fim, destacaria também o percurso como um todo. Mais do que um evento específico, é a evolução que fui sentindo ao longo dos anos, desde as primeiras competições até aos palcos mais exigentes.
Como começou a sua ligação ao karaté e o que o continua a motivar para manter uma prática competitiva ao mais alto nível?
A minha ligação ao karaté começou muito cedo, tinha cerca de 5 anos. Na altura, lembro-me que os professores diziam que eu era uma criança com muita energia e que precisava de um desporto para a canalizar e, de certa forma, foi isso que acabou por acontecer.
Por coincidência, o meu primo, que é mais velho, já praticava karaté, e isso despertou-me alguma curiosidade. Acabei por experimentar e, desde cedo, identifiquei-me bastante com a modalidade. O que começou quase como uma forma de “gastar energia” acabou por ganhar outro significado ao longo do tempo.
Com os anos, o karaté deixou de ser apenas um desporto e passou a fazer parte da minha identidade. Continuei a evoluir, a entrar em competições, a definir objetivos mais ambiciosos, e isso foi criando uma motivação cada vez maior.
Hoje, aquilo que me continua a motivar é muito essa vontade constante de crescer. No karaté há sempre margem para melhorar, seja a nível técnico, físico ou mental. Para além disso, a competição, o desafio pessoal e a oportunidade de representar o país continuam a ser grandes fontes de motivação.
Que competências desenvolvidas através do desporto considera que mais o ajudam na sua vida académica e profissional?
Uma das principais competências que destaco é, sem dúvida, a disciplina. A necessidade de cumprir rotinas de treino, muitas vezes em paralelo com estudos e trabalho, obriga a uma gestão rigorosa do tempo e das prioridades.
Outra competência muito importante é a resiliência. No desporto estamos constantemente sujeitos a desafios, derrotas e momentos de pressão, e aprender a lidar com isso, a ajustar e a continuar a evoluir, é algo que depois se reflete diretamente no contexto académico e profissional. Acabamos por ganhar uma maior capacidade de lidar com exigência e com situações menos favoráveis.
A capacidade de foco e concentração também é destacada. Em competição, pequenos detalhes fazem a diferença, e isso acaba por criar uma mentalidade muito orientada para o detalhe e para a execução com qualidade.
Por fim, a gestão do stress e a capacidade de trabalhar sob pressão são competências fundamentais que o desporto desenvolve. Nos momentos decisivos, é preciso manter a clareza e tomar boas decisões, e essa experiência acaba por preparar muito bem para contextos exigentes a nível académico e profissional.
O que significa para si representar a Universidade do Minho em competições nacionais e internacionais?
Representar a Universidade do Minho em competições nacionais e internacionais é um motivo de orgulho e uma responsabilidade acrescida. Existe a vontade de representar bem a instituição, não só pelos resultados desportivos, mas também pela forma como me comporto dentro e fora da competição. Acaba por ser uma extensão do meu percurso académico, levando comigo os valores de exigência, rigor e compromisso que a própria Universidade transmite.
Para além disso, sinto que essa representação cria uma ligação ainda mais forte com a instituição. Não sou apenas estudante; sou também alguém que contribui, à sua escala, para a visibilidade e o reconhecimento da Universidade no contexto desportivo.
Ao longo do seu percurso académico, beneficiou de algum apoio disponibilizado pelos SASUM ou pela Universidade, nomeadamente bolsas de estudo, alojamento em residência universitária, estatuto de estudante-atleta ou outros mecanismos de apoio? De que forma contribuíram para o seu percurso académico e desportivo?
Ao longo do meu percurso académico, o principal apoio de que beneficiei foi o estatuto de estudante-atleta, que acabou por ser fundamental para conseguir conciliar as exigências académicas com o desporto de alto rendimento.
Para além disso, outro aspeto muito importante foi o facto de as provas em que representei a universidade, tanto a nível nacional como europeu, serem suportadas pela própria instituição. Esse apoio acabou por retirar uma preocupação significativa e permitiu-me focar totalmente na preparação e no desempenho competitivo.
Mesmo que não tenha recorrido diretamente a alguns destes apoios, qual considera ser a importância da ação social e dos mecanismos de apoio ao estudante na promoção da igualdade de oportunidades e do sucesso académico no ensino superior?
Mesmo não tendo recorrido diretamente a todos os mecanismos de apoio disponíveis, considero que a ação social tem um papel absolutamente essencial na promoção da igualdade de oportunidades.
Nem todos os estudantes partem das mesmas condições, seja a nível económico, familiar ou até geográfico. Assim, apoios como bolsas de estudo, alojamento ou outros mecanismos sociais são fundamentais para garantir que o acesso e a permanência no ensino superior não dependem apenas dessas condições iniciais, mas sim do mérito, do esforço e da capacidade de cada um.
Para além disso, um estudante que tem menos preocupações financeiras ou logísticas consegue, naturalmente, estar mais focado na sua formação e tirar maior partido da experiência universitária.
Que conselho deixaria a outros estudantes que gostariam de conciliar o percurso académico com a prática desportiva de competição?
Conciliar o percurso académico com o desporto de competição não é fácil, exige disciplina diária e uma gestão muito consciente do tempo. Há momentos em que é necessário abdicar de algumas coisas para conseguir manter o equilíbrio entre as duas áreas.
Definir prioridades e ter objetivos claros é fundamental para perceber o que se pretende alcançar, tanto a nível académico como desportivo, e trabalhar de forma estruturada para isso. Sem essa clareza, torna-se mais difícil lidar com os momentos de maior exigência.
É também essencial gostar realmente daquilo que se faz. A motivação acaba por ser o fator que sustenta todo o esforço ao longo do tempo. Quando há gosto e compromisso, torna-se mais fácil lidar com a exigência e com os momentos mais difíceis.
Quais são os seus principais objetivos para o futuro, tanto a nível académico e profissional como desportivo?
Em termos académicos, o principal objetivo passa por concluir o Mestrado em Sistemas de Informação, consolidando as competências técnicas que tenho vindo a desenvolver, especialmente na área da análise de dados e sistemas de apoio à decisão.
Do ponto de vista profissional, pretendo continuar a crescer na área da análise e gestão de informação, idealmente em contextos onde seja possível aliar dados, tecnologia e tomada de decisão. O objetivo passa por desenvolver soluções que tenham impacto real nas organizações, de modo a contribuir para processos mais eficientes e fundamentados.
Ao nível desportivo, a ambição mantém-se no sentido de continuar a competir ao mais alto nível, a representar a Universidade e outras entidades, e procurando alcançar resultados cada vez mais consistentes.
Atualizado a 29-07-2026 12:00
