Joana Figueiredo: a Engenharia ao serviço da mobilidade, da autonomia e da qualidade de vida
Ana Marques ⠿ 30-07-2026 11:00
Investigadora na área da Engenharia Biomédica, Joana Figueiredo dedica o seu trabalho ao desenvolvimento de tecnologias inteligentes para a reabilitação motora e a assistência personalizada ao movimento humano. Entre sensores vestíveis, exoesqueletos, interação humano-robô e inteligência artificial, a sua investigação procura responder a desafios concretos da saúde, da autonomia e do envelhecimento, aproximando o conhecimento científico de soluções com impacto real na vida das pessoas.
Joana Sofia Campos Figueiredo é investigadora júnior no Departamento de Eletrónica Industrial da Escola de Engenharia da Universidade do Minho e integra o BiRDLab (Biomedical Robotic Devices Laboratory), do Centro de Microssistemas Eletromecânicos (CMEMS), coordenado pela professora Cristina Peixoto Santos. Doutorada pela Universidade do Minho, dedica a sua investigação às áreas da reabilitação neurológica, dos exoesqueletos, da interação humano-robô e da inteligência artificial aplicada ao movimento humano.
Em 2025, venceu o Prémio Inovação e Empreendedorismo da Escola de Engenharia, distinção entregue no dia do aniversário da Escola, em reconhecimento do potencial inovador do trabalho que tem vindo a desenvolver. Nesta entrevista, fala sobre o seu percurso na Engenharia Biomédica, os desafios da investigação aplicada ao movimento humano e o papel da tecnologia na construção de soluções capazes de melhorar a mobilidade e a qualidade de vida de pessoas com doenças, distúrbios motores ou lesões.
Como começou o seu percurso na área da Engenharia Biomédica e o que a motivou a seguir esta área de investigação?
A vontade de melhorar a saúde das pessoas e a tendência para procurar soluções para problemas acompanham-me desde criança. A Engenharia Biomédica permitiu-me conciliar essas duas motivações. Um dos problemas que me sensibiliza, em particular, são as doenças e/ou distúrbios motoros, porque considero que a liberdade de movimento, sem limitações ou dor, é um dos aspetos mais fundamentais da condição humana. Foi essa motivação que me conduziu à investigação, com o objetivo de aprofundar conhecimento e contribuir para melhorar a vida de pessoas com dificuldades motoras ou lesões.
Atualmente desenvolve investigação nas áreas da reabilitação neurológica, exoesqueletos, interação humano-robô e inteligência artificial aplicada ao movimento humano. O que a fascina nestes domínios científicos?
Fascina-me a possibilidade de devolver às pessoas a oportunidade de voltar a andar ou de recuperar a sua independência nas tarefas do dia a dia. Por isso, a reabilitação neurológica apoiada por sistemas robóticos, como os exoesqueletos, surgiu como uma escolha natural. Estes dispositivos podem fornecer assistência física personalizada e apoiar a mobilidade de forma contínua. Do ponto de vista científico, fascina-me o desafio de compreender e modelar o movimento humano. Controlar um exoesqueleto implica perceber não apenas como nos movemos, mas também como interagimos com o ambiente. A inteligência artificial desempenha aqui um papel fundamental, permitindo analisar a enorme variabilidade do movimento humano e adaptar a assistência às necessidades específicas de cada pessoa.
Para quem não está familiarizado com estas áreas, como explicaria o seu trabalho e os objetivos da sua investigação?
A nossa investigação inspira-se na forma como o sistema nervoso humano controla o movimento. O objetivo é tornar a reabilitação motora mais intensiva e eficaz, e desenvolver tecnologias de assistência personalizadas. Para isso, começamos por desenvolver sensores vestíveis que recolhem informação sobre o movimento da pessoa e a sua interação com o ambiente. Depois, utilizamos inteligência artificial para interpretar esses dados. Com base nessa informação, criamos sistemas de controlo inteligentes que ajustam automaticamente o funcionamento dos exoesqueletos (por exemplo, a força, a velocidade ou a posição) às necessidades reais de cada utilizador.
Que problemas concretos procura ajudar a resolver através das tecnologias que desenvolve?
Estas tecnologias têm como objetivo melhorar a condição física e funcional das pessoas em diferentes contextos. Numa primeira fase, a minha investigação focou-se em sobreviventes de AVC com pé pendente, uma sequela frequentemente conhecida como “pé caído”. Desenvolvemos um exoesqueleto que auxilia os movimentos do pé e do tornozelo, reduzindo dificuldades na marcha e o risco de queda. Posteriormente, expandimos esta abordagem ao joelho, uma articulação particularmente sujeita a desgaste. Mais recentemente, temos aplicado estas tecnologias à deteção precoce e assistência personalizada de pessoas com lesões musculoesqueléticas, tanto em contexto laboral como desportivo.
Ao longo do seu percurso, quais os projetos ou resultados que considera mais marcantes?
Ao longo do meu percurso, os momentos mais marcantes estiveram relacionados com a criação de equipas e a captação de financiamento para transformar ideias em realidade. Recordo com especial significado a primeira equipa dedicada à investigação em exoesqueletos, que trabalhou de forma apaixonada mesmo sem remuneração, e a obtenção do primeiro projeto financiado nesta área. Desde então, conseguimos assegurar cinco projetos de investigação em exoesqueletos inteligentes, contabilizando um financiamento próximo dos três milhões de euros. Destaco também a aprovação do meu contrato de emprego científico e a oportunidade de liderar o meu primeiro projeto enquanto investigadora principal. Paralelamente, houve conquistas mais discretas, mas igualmente importantes a nível pessoal, como as primeiras publicações científicas e os prémios de reconhecimento atribuídos por entidades nacionais e pela comunidade científica internacional.
De que forma a investigação desenvolvida pela sua equipa pode contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas?
Apesar da constante renovação dos membros da equipa, existe uma missão comum que nos une: contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Procuramos desenvolver soluções que promovam o bem-estar físico e a autonomia, gerando um impacto positivo não apenas na saúde, mas também na participação social e na qualidade de vida de pessoas com limitações motoras.
Num contexto de envelhecimento da população e de crescente necessidade de cuidados de saúde, que papel pode a Engenharia desempenhar na resposta a estes desafios?
Por um lado, estas tecnologias podem contribuir para acelerar os processos de recuperação e reabilitação após uma lesão, doença ou acidente. Por outro, pode ajudar a prolongar a autonomia e a condição física das pessoas à medida que envelhecem.
Como surgiu a ideia de criar a eDynamics Technologies e de que forma a empresa complementa o trabalho desenvolvido na Universidade?
A inovação e o empreendedorismo sempre fizeram parte dos meus objetivos profissionais e foram, inclusivamente, uma das principais razões para ter aceitado o desafio de realizar um doutoramento em a investigação aplicada. Na minha opinião, esta veia empreendedora é inata à pessoa. Desde cedo senti uma forte motivação para transformar conhecimento científico em soluções concretas, acessíveis e utilizáveis no dia a dia das pessoas para responder aos desafios da mobilidade reduzida e da prevenção de lesões. A criação da eDynamics Technologies surgiu precisamente dessa ambição: transformar anos de investigação em soluções com aplicação prática e potencial de adoção no mercado, resultando numa realização profissional e sonho pessoal.
Quais têm sido os principais desafios de transformar investigação académica em soluções tecnológicas com aplicação real no mercado?
A transição da investigação para o mercado revelou-se muito mais desafiante do que imaginava. Na academia, existe espaço para explorar ideias, testar hipóteses e aprender com o erro. No contexto empresarial, cada decisão envolve riscos, recursos limitados e uma forte pressão temporal, além de que, diariamente, temos de realizar tarefas burocráticas, técnicas e legais que nunca fizemos, nem sabemos como fazer.
Um dos maiores desafios foi perceber que uma tecnologia promissora do ponto de vista científico nem sempre corresponde a uma necessidade real do mercado. É necessário validar se o problema existe, quem está disposto a pagar e se a tecnologia desenvolvida é efetivamente a solução que os utilizadores procuram. Este processo obrigou-nos, em vários momentos, a repensar e redesenhar tecnologias que em termos de investigação acreditávamos que estavam no TRL5, mas, na realidade, tivemos de voltar ao início. A realidade é que muitos resultados de investigação nunca serão produto porque o mercado não sente que é um problema suficiente para o pagar ou a tecnologia não é a melhor solução para resolver o problema.
Que significado teve para si a atribuição do Prémio Inovação e Empreendedorismo da Escola de Engenharia da Universidade do Minho?
Recebi este prémio com enorme satisfação e gratidão. Foi um reconhecimento particularmente importante numa fase exigente do meu percurso, marcada por muitos desafios, trabalho solitário, investimento e sacríficos pessoais, e incertezas associados ao empreendedorismo, um processo incompreensível pela família e sobretudo pelos colegas de trabalho. Para além da distinção pessoal, o prémio reforçou a minha convicção de que é importante aproximar a investigação do mercado e criar melhores condições para a transferência de conhecimento e tecnologia. Ainda existe um caminho ingreme a percorrer nesse domínio, tanto em Portugal como na Europa, e acredito que ouvir quem está a viver este processo pode ajudar a melhorar o ecossistema de inovação porque há muitas barreiras no ambiente académico que não fazem sentido existirem.
Enquanto docente e investigadora, que papel tem a Escola de Engenharia da Universidade do Minho no desenvolvimento da sua atividade científica e profissional?
A EEUM foi a instituição que contribuiu para a minha formação académica e científica, e onde construí a base da minha carreira como investigadora. Após 16 anos nesta casa, destaco particularmente a sua forte ligação à aplicação prática do conhecimento. A proximidade à indústria e às necessidades da sociedade cria um ambiente muito favorável para desenvolver investigação com potencial de impacto real.
Na sua opinião, o que distingue a investigação realizada na Escola de Engenharia da UMinho?
A EEUM tem uma forte orientação para a aplicação prática do conhecimento. Existe uma preocupação constante em transformar resultados científicos em soluções que respondam a desafios concretos da sociedade e da indústria local. Esta cultura de proximidade com empresas locais permite que a investigação desenvolvida tenha relevância científica, mas também impacto económico e social.
Grande parte do seu trabalho envolve também estudantes de mestrado e doutoramento. Que oportunidades encontram estes estudantes ao integrarem projetos de investigação desta natureza?
A nossa investigação é, por natureza, multidisciplinar, envolvendo áreas como a engenharia biomédica, eletrónica, informática, robótica, inteligência artificial, biomecânica, ciência de dados, entre outras áreas. Por isso, a participação de estudantes com diferentes especializações é essencial para o sucesso dos projetos. Ao integrarem estas equipas, os estudantes têm a oportunidade de trabalhar em problemas reais e colaborar com investigadores de diferentes áreas. Este ambiente permite-lhes desenvolver competências técnicas diversificadas, explorar qual a área que preferem trabalhar, e evoluir nas competências transversais, como trabalho em equipa, comunicação, pensamento crítico e capacidade de adaptação. No caso dos candidatos de doutoramento, a nossa equipa procura proporcionar experiências em escrita científica, captação de financiamento, gestão de projetos e de equipas e comunicação pública da ciência, preparando-os para assumirem posições de liderança em investigação, inovação e desenvolvimento tecnológico.
Que competências considera essenciais para os futuros engenheiros que pretendam desenvolver carreira nas áreas da investigação, inovação e empreendedorismo?
Mais do que competências técnicas, destacaria a dedicação a 200%, a capacidade de pensamento crítico e querer pensar, a resiliência e a autonomia. Quem escolhe uma carreira na nestas áreas deve estar preparado para lidar com incerteza, rejeições e falhas frequentes. É fundamental desenvolver a capacidade de tomar decisões de forma racional e manter a motivação mesmo perante obstáculos (se estás à espera de que o teu orientador te motive a cada falha, então não estás preparado!). A experiência de construir algo a partir do zero, com uma folha em branco, sem dinheiro, sem equipamento e sem equipa foi extremamente difícil, e tive de o fazer mais do que uma vez, mas é uma das melhores escolas para desenvolver estas competências de empreendedorismo.
Ao longo do seu percurso académico e profissional, houve apoios, estruturas ou oportunidades proporcionadas pela Universidade que tenham sido particularmente importantes para o seu desenvolvimento enquanto estudante, investigadora e empreendedora?
A Universidade proporcionou-me oportunidades importantes de formação, investigação e colaboração que contribuíram para o meu percurso. No entanto, acredito que o mais importante é saber identificar e aproveitar essas oportunidades. E, quando elas não existem, ter a iniciativa de ajudar a criá-las.
Que projetos ou desafios gostaria ainda de concretizar nos próximos anos?
Gostaria de consolidar a presença internacional da eDynamics Technologies e tornar as nossas soluções uma referência na promoção da saúde física e prevenção de lesões. Em paralelo, contribuir no desenvolvimento de um exoesqueleto ativo vestível, confortável como uma peça de roupa e capaz de fornecer assistência personalizada nas atividades do dia a dia.
Que mensagem deixaria aos estudantes da Escola de Engenharia que sonham desenvolver investigação com impacto na sociedade?
Se querem desenvolver investigação com impacto, comecem por ouvir as pessoas. Antes de procurar uma solução tecnológica, é essencial compreender o problema real e as necessidades dos utilizadores. A literatura científica ajuda-nos a identificar desafios tecnológicos e lacunas de conhecimento, mas não revela aquilo que as pessoas realmente precisam. O impacto surge quando a ciência responde a necessidades concretas da sociedade.
Atualizado a 29-07-2026 17:00
