Muito para além da Engenharia: uma experiência que ficou para a vida
Ana Marques ⠿ 30-07-2026 14:00
Beatriz Oliveira e José António Silva pertencem à mesma geração de alumni da Escola de Engenharia da Universidade do Minho e partilham muito mais do que uma formação em Engenharia. Entre 1992 e 1997, viveram intensamente a experiência universitária, conciliando a formação em Engenharia de Sistemas e Informática com o envolvimento no Grupo Aventura da AAUMinho, o voluntariado e a vida associativa.
Nesta entrevista conjunta, recordam as memórias desses anos e refletem sobre a forma como a Universidade contribuiu para moldar as pessoas e os profissionais que são hoje.
Sobre os alumni
Beatriz Oliveira
Licenciada em Engenharia de Sistemas e Informática pela UMinho, é fundadora e CEO da BindTuning. Foi distinguida como Microsoft Regional Director e reconhecida pelo seu percurso na área da tecnologia e empreendedorismo.
José António Silva
Licenciado em Engenharia de Sistemas e Informática pela UMinho, foi atleta olímpico de canoagem, tendo representado Portugal nos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992 e conquistado medalhas em competições internacionais.
Frequentaram o curso de Engenharia de Sistemas na Universidade do Minho. Em que anos decorreu o vosso percurso académico e o que vos levou a escolher a UMinho?
Beatriz: Frequentámos ambos a UM entre 1992 e 1997. No meu caso, o curso de Engenharia de Sistemas e Informática era uma quase novidade: um curso promissor, com enorme potencial, e praticamente sem comparativo nacional (havia apenas um equivalente no IST). Era exatamente o tipo de desafio que me atraía. Essa foi a base da minha escolha, e não me arrependi um único dia.
José: Acabei por só começar o curso em 92, após 3 anos investidos numa participação olímpica. Mas desde 89 que eu e os meus colegas do Técnico Profissional em Gaia tínhamos como referência o curso de Engenharia de Sistemas no Minho.
Que memórias guardam dos vossos primeiros tempos enquanto estudantes universitários?
Beatriz: O período que passei na UM foi, sem dúvida, remarkable e absolutamente fundamental para o caminho que trilhei depois. Foram cinco anos com muitas fases diferentes, todas valiosas à sua maneira: um sentimento genuíno de acolhimento e pertença, amizades que se construíram para a vida, e um crescimento que não se mede. Dos tempos da praxe (que adorei) à vivência académica ímpar, da organização de eventos para a viagem de curso, ao Grupo Aventura, tudo contribuiu para um sentimento de enorme gratidão à UM. É difícil resumir cinco anos assim.
José: O início foi muito difícil para mim, embora tenha conseguido recuperar e terminar o 1º Ano sem nada em atraso, lembro-me que foi muito importante o grupo de amigos que me ajudaram a estudar e preparar para os exames. Inclusive a Beatriz que tinha uns ótimos apontamentos de Análise Matemática.
Para além do percurso académico, estiveram envolvidos no Grupo Aventura da AAUMinho, colaborando na organização de atividades para a comunidade académica. Como surgiu essa ligação e o que vos motivou a participar?
Beatriz: Foi uma verdadeira sorte sermos dos primeiros membros do Grupo Aventura. Olhando para trás, que honra. A entrada foi natural: como já namorava com o Zé-Tó (que na altura ainda estava na alta competição) fomos os dois, a convite do Fernando Parente. Ajudámos a organizar e participámos em inúmeras iniciativas, mas tenho a convicção de que o grupo nos deu mais a nós do que nós ao grupo. É assim que as melhores experiências funcionam.
José: Eu continuei a competir em Maratonas durante os primeiros 4 anos, e não havendo Canoagem em Gualtar, procurei fazer atividades de corrida (Orientação) ou nas piscinas. O Fernando Parente, responsável pelo desporto na UMinho, também começou na mesma altura a promover atividades e eu tive a sorte de fazer parte de algumas equipas multidisciplinares e começamos a participar em competições “Aventura” em França e depois também num circuito que se fazia nos anos 90 cá em Portugal.
Que importância teve essa experiência associativa e de voluntariado no vosso percurso enquanto estudantes?
Beatriz: Foi um marco. Dois anos e meio de uma entrega muito saudável, de participar em tantas iniciativas desportivas pela primeira vez, para mim e para tantos outros. A estreia em tantos desportos, a organização de provas, a adrenalina de construir algo com um grupo unido. Para mim, em particular, aquela experiência consolidou uma prática de ação voluntária que vim a desenvolver ao longo da vida: durante uma década na organização do CoderDojo de Vila do Conde (um grupo de ensino de tecnologia a crianças e jovens) e em anos de mentoria, nomeadamente na própria UM. O voluntariado não é um parêntesis na vida. É parte do carácter.
José: Depois de um percurso desportivo que culminou com uma medalha nos mundiais de Júnior (89) e depois os Jogos Olímpicos em Barcelona 92, de certa forma sentia que toda uma comunidade em Crestuma, Amarante e claro, da jovem Federação de Canoagem tinha me apoiado nesse percurso. Nos cinco anos que passei em Braga tentei de certa forma partilhar e dar um pouco dessa experiência. Conseguimos um apoio para adquirir Kayaks de plástico para o grupo e conseguimos criar e treinar toda uma equipa de Kayak-Polo. Alunos que nunca tinham praticado canoagem antes, aprenderam até a fazer esquimotagem – e acabamos mesmo por vencer o Campeonato Nacional Universitário e a vencer um torneio Luso-Galaico em Lugo.
A Universidade é muito mais do que salas de aula e exames. De que forma a participação em atividades extracurriculares contribuiu para a vossa experiência académica e pessoal?
Beatriz: O que aprendi nas salas de aula foi essencial. Mas o que aprendi fora delas foi transformador. A participação no Grupo Aventura ensinou-me a trabalhar em equipa sob pressão, a liderar sem manual de instruções, a lidar com o imprevisível e a encontrar soluções com poucos recursos. Competências que nenhuma unidade curricular poderia transmitir da mesma forma. E, talvez o mais importante: foi nesses contextos que se construíram as amizades mais duradouras e um sentido de comunidade que ainda hoje carrego comigo.
José: O desporto aventura era sem dúvida uma forma de celebrar a natureza, bons hábitos saudáveis, e aprender técnicas de segurança individual e para todo o grupo. Fizemos Orientação, BTT, Canoagem, Ski, e muitas atividades com slides, rappel, escalada. Andávamos ali entre o que agora são os Trails e/ou treino militar. Como membros fizemos muita formação, para depois como voluntários fazermos segurança e a organização de eventos. A certa altura começámos os “Caloiros de Molho” que era uma espécie de Jogos sem Fronteiras para o acolhimento dos novos membros da Academia. Obviamente isto enriqueceu e muito a nossa experiência e guardamos amigos para a vida.
Recordam-se de algum momento, iniciativa ou projeto vivido na UMinho que tenha marcado particularmente o vosso percurso?
Beatriz: Lembro-me de dois, imediatamente. O primeiro foi um evento que organizámos no Sardinha Biba para angariar fundos para a viagem de curso. Levámos um Mini para dentro da discoteca e fizemos um concurso para ver quantas pessoas cabiam lá dentro. Um must absoluto, e uma noite inesquecível. O segundo foi a semana de ski em Andorra com o Grupo Aventura. A oportunidade de ir à neve pela primeira vez, ter aulas de ski, partilhar uma semana inteira com tantos amigos e colegas. Foi mágico. Criamos memórias que ficam para sempre.
Durante o seu percurso académico na Universidade do Minho, beneficiou de algum apoio disponibilizado pelos SASUM, nomeadamente bolsa de estudo, alojamento em residência universitária, apoio alimentar ou outros serviços? De que forma esses apoios contribuíram para o vosso percurso académico?
Beatriz: Não beneficiei diretamente desses apoios. A minha situação familiar permitiu-me frequentar a universidade sem essa necessidade, e tenho consciência de que isso, por si só, já foi um privilégio.
Independentemente de terem recorrido diretamente a esses apoios, qual consideram ser a importância da ação social e dos serviços de apoio ao estudante na promoção da igualdade de oportunidades e do sucesso académico no ensino superior?
Beatriz: É fundamental, e não há outra palavra. O acesso ao ensino superior não pode depender da origem socioeconómica de cada um. Os serviços de ação social são, muitas vezes, o que torna possível que um estudante com talento e determinação (mas com menos recursos) possa concluir a sua formação sem ter de escolher entre estudar e sobreviver. Sem essa rede de suporte, perderíamos talentos que o país e as organizações precisam. É um investimento silencioso, mas de retorno imenso.
José: Quero acrescentar que o apoio aos estudantes é sempre um recurso limitado e que, nesse contexto, é importante que diferentes entidades possam contribuir para criar oportunidades. Temos conseguido apoiar algumas iniciativas, como a Stand4Good e programas de mentoria e estágios, onde também os privados podem ajudar jovens nestas fases importantes de crescimento e transição para o mercado de trabalho.
Consideram que a formação recebida na Escola de Engenharia teve influência no vosso percurso profissional? De que forma?
Beatriz: Absolutamente. A formação em Engenharia de Sistemas e Informática deu-me muito mais do que competências técnicas, deu-me uma forma de pensar. A capacidade de decompor problemas complexos, de construir soluções com rigor, de questionar processos antes de os automatizar: tudo isso é reflexo direto daqueles cinco anos. Tornei-me fundadora de três empresas, e sou CEO de uma delas. Reconheço claramente, em cada decisão estratégica e em cada produto que construímos, as bases de engenharia e pensamento sistémico que trago comigo. A escola não me deu respostas para tudo, mas deu-me a estrutura para as encontrar.
Ao longo das vossas carreiras, quais foram os momentos ou conquistas que consideram mais marcantes?
Beatriz: Há três que me ficam no coração. Ser reconhecida como Microsoft Regional Director (distinção que mantenho já há sete anos), sendo a única em Portugal. Ser escolhida como Female Founder of the Year pelas PWIT em 2020. E ser reconhecida como Microsoft Power Women in Tech por Portugal em 2023. Cada um destes reconhecimentos representa não só trabalho, mas uma teimosia saudável em continuar, em construir, em não desistir quando o caminho fica difícil.
José António, para além do percurso académico, destacou-se também no desporto de alta competição. Como foi possível conciliar estas diferentes dimensões da vida universitária e que aprendizagens retirou dessa experiência?
José: Costumava dizer que durante o ciclo olímpico treinamos tanto que depois durante o curso foi mais manter a máquina saudável. A verdade é que embora tivesse muito menos oportunidades para treinar durante a semana, aproveitava todos os fins-de-semana e as pausas da Universidade eram direcionados para estágios e competições. Lembro-me que tentava dormir sempre que podia, e não deixar o estudo para as vésperas dos exames para não ter de fazer noitadas. Uma agenda bem compacta tem tendência a gerar menos desperdícios e/ou vícios.
Que papel teve a Universidade do Minho na construção das pessoas e profissionais que são hoje?
Beatriz: Foi uma das forças formativas mais determinantes da minha vida, e digo isto com toda a convicção. Não só pelo que aprendi, mas pelo ambiente em que aprendi. Braga, a academia, os professores, os colegas, as vivências, tudo isso moldou não apenas a profissional que me tornei, mas a pessoa. Aprendi a ser mais curiosa, resiliente e colaborativa. E aprendi que uma comunidade, quando funciona bem, eleva cada um dos seus membros.
Que conselho deixariam aos atuais estudantes da Escola de Engenharia e da Universidade do Minho?
Beatriz: Que não subestimem o valor do tempo que têm agora. É um privilégio raro poder dedicar anos inteiros a aprender, a explorar, a errar com relativamente poucas consequências. Aproveitem tudo: as aulas difíceis que vos obrigam a pensar de forma diferente, os projetos de grupo que vos ensinam a trabalhar com pessoas que não escolheram, as atividades extracurriculares que vos revelam capacidades que ainda não sabem que têm. E cultivem relações, com colegas, professores, mentores. Na vida, raramente chegamos longe sozinhos.
O que significa, hoje, serem alumni da Universidade do Minho?
Beatriz: Significa pertencer a algo que nos antecede e que vai muito além de nós. Há uma responsabilidade implícita em ser alumni da UM: a de honrar a escola, os seus valores, o que representa para tantos estudantes que chegam cheios de expectativas, como nós chegámos. Significa também reconhecer que muito do que somos hoje tem raízes naqueles cinco anos em Braga. E significa, sempre que possível, retribuir: seja através da mentoria, do envolvimento com a academia, ou simplesmente sendo um exemplo de que o que a universidade semeia dá fruto. É uma ligação para a vida.
Atualizado a 29-07-2026 14:00
