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PERCURSOS – Manuel Oliveira

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PERCURSOS – Manuel Oliveira

Ana Marques ⠿ 30-07-2026 10:00

"Foi como um pai para mim": uma vida dedicada aos SASUM

Depois de um grave acidente de trabalho, Manuel da Silva Oliveira encontrou nos SASUM uma oportunidade para recomeçar. Há quase 28 anos que integra a instituição, onde durante 23 anos acompanhou de perto gerações de estudantes nas residências universitárias e onde exerce atualmente funções na Divisão de Aprovisionamento e Gestão de Stocks. Nesta entrevista, recorda o percurso, os desafios que superou e as memórias que fazem dos SASUM a sua segunda casa.

 

Está nos SASUM há vários anos. Como começou a sua ligação à instituição e o que recorda dos primeiros tempos?

Fez 28 anos no dia 1 de julho. Antes de chegar aos SASUM trabalhei no setor têxtil, onde sofri um grave acidente de trabalho que resultou na amputação de uma mão. Depois disso passei cerca de três anos numa fase muito difícil da minha vida.

Entretanto, fui fazendo alguns trabalhos, nomeadamente numa empresa ligada ao setor agropecuário, mas eram empregos sem estabilidade e sem os direitos laborais que um trabalhador deve ter.

Foi uma pessoa conhecida, que trabalhava nos SASUM, quem me incentivou a procurar outra solução. Disse-me que devia falar com o então administrador dos Serviços de Acção Social, o Dr. Armando Osório.

Curiosamente, fui falar com ele precisamente no dia em que se assinalavam três anos do acidente. Recebeu-me, ouviu a minha história e encaminhou-me de imediato para os Recursos Humanos. Perguntaram-me quando queria começar a trabalhar. Respondi: "Pode ser já no dia 1 de julho."

E assim começou o meu percurso nos SASUM, primeiro na Residência Lloyd Braga, onde permaneci durante 23 anos. Foi uma mudança enorme na minha vida e posso dizer que foram anos maravilhosos.

 

Durante 23 anos trabalhou como rececionista nas residências universitárias. O que mais apreciava no contacto diário com os estudantes?

O que mais me marcou foi a forma como os estudantes viviam a Universidade naquela altura. Havia mais liberdade, menos pressão académica e muito espírito de convivência.

A residência era um espaço onde se criavam amizades e onde havia uma grande partilha entre todos.

Nunca senti que existisse uma barreira entre funcionários e estudantes. Como costumo dizer, ali não havia "eu sou o rececionista e tu és o estudante". Criava-se uma relação de proximidade, amizade e até de partilha de conhecimentos.

É isso que mais recordo daqueles anos.

 

As residências universitárias são, muitas vezes, uma segunda casa para quem está longe da família. Sentia que, por vezes, era mais do que um rececionista?

Sem dúvida.

Posso dizer, com muita alegria, que muitas vezes fui mais do que um rececionista.

Acompanhei centenas de estudantes ao longo dos seus percursos académicos. Nos primeiros dias via, muitas vezes, os pais — sobretudo as mães — e os próprios estudantes emocionados, principalmente aqueles que vinham de zonas mais distantes do país e estavam longe de casa pela primeira vez.

Tentava criar desde logo uma relação de proximidade. Dizia-lhes que devíamos funcionar como uma família, cada um com a sua função, mas sempre disponíveis para ajudar quando fosse necessário.

Era esse o espírito que procurava transmitir todos os dias. Bastava perguntar: "Está tudo bem?" E, se percebia que alguém precisava de ajuda, fazia tudo o que estava ao meu alcance para apoiar.

Aconteceu algumas vezes abrir o frigorífico da receção e dizer a um estudante para levar alguma coisa para comer. Depois comunicava sempre essa situação aos meus superiores. Felizmente não acontecia muitas vezes, mas, quando acontecia, fazia-o com naturalidade.

Sempre acreditei que uma residência universitária deve ser muito mais do que um local para dormir.

Deve ser um espaço onde os estudantes sintam que têm uma segunda casa.

 

Há alguma memória ou algum estudante que o tenha marcado particularmente durante os anos em que trabalhou nas residências?

Felizmente, guardo muitas memórias bonitas daqueles anos.

Uma das coisas de que mais me orgulho é de ter acompanhado tantos estudantes ao longo do seu percurso académico e de, em muitos casos, ter criado uma relação de confiança com eles.

Entretanto, também decidi investir na minha formação e concluí o 12.º ano através do programa Novas Oportunidades. Curiosamente, tive a ajuda de vários estudantes da residência, que me apoiaram e incentivaram durante esse percurso. Foi uma experiência muito enriquecedora.

São estas relações humanas que mais recordo. Ainda hoje encontro antigos residentes que fazem questão de me cumprimentar e recordar aqueles anos. É muito gratificante sentir que, de alguma forma, também fiz parte do percurso deles.

 

Há alguns anos abraçou um novo desafio na Divisão de Aprovisionamento e Gestão de Stocks. Como surgiu essa mudança e em que consiste atualmente o seu trabalho?

Depois de muitos anos nas residências universitárias surgiu a oportunidade de abraçar um novo desafio profissional na Divisão de Aprovisionamento e Gestão de Stocks.

Foi uma mudança grande. Tudo era novo para mim e, naturalmente, houve um período de adaptação. Não foi fácil no início, mas fui aprendendo e hoje sinto-me plenamente integrado na equipa.

Atualmente faço a ligação com os fornecedores, através do telefone e do correio eletrónico, apoio a receção das mercadorias, verifico a documentação e preparo todo o processo para que possa seguir para o Departamento Financeiro.

É um trabalho diferente daquele que desempenhava nas residências, mas igualmente importante para o funcionamento diário dos SASUM. Também aqui continuo a aprender todos os dias.

 

Depois de quase 28 anos de casa, quais foram as maiores mudanças que observou nos SASUM e na própria Universidade do Minho? O que distingue os SASUM enquanto instituição ao serviço dos estudantes?

Ao longo destes anos assisti a muitas mudanças, tanto nos SASUM como na própria Universidade do Minho.

A transformação tecnológica foi, provavelmente, a maior de todas. Quando comecei a trabalhar, quase tudo era feito em papel. As comunicações eram por telefone ou através de mensagens escritas à mão. Com a chegada dos computadores e das novas tecnologias, a forma de trabalhar mudou completamente e tornou-se muito mais rápida e eficiente.

Também a Universidade cresceu muito. Hoje é uma instituição muito maior, com mais estudantes, mais edifícios e uma atividade muito mais diversificada.

Esse crescimento trouxe muitos aspetos positivos, mas também sinto que, de alguma forma, se foi perdendo alguma proximidade entre as pessoas. Antigamente havia mais tempo para conversar, para conhecer os colegas e para acompanhar os estudantes de uma forma mais próxima. Hoje tudo acontece a um ritmo muito mais acelerado.

Apesar disso, continuo a acreditar que os SASUM se distinguem precisamente pelo apoio que prestam aos estudantes. Muitos chegam longe de casa e encontram aqui não apenas serviços, mas também pessoas disponíveis para orientar, ajudar e acompanhar. Independentemente da função que desempenhamos, todos contribuímos para o bem-estar dos estudantes, e é isso que, para mim, continua a fazer a diferença.

 

Houve algum momento particularmente difícil ou desafiante que o tenha marcado ao longo do seu percurso?

Ao longo de quase três décadas de trabalho houve, naturalmente, momentos mais difíceis.

Um deles acabou por marcar o meu percurso profissional e levou-me a deixar as residências universitárias, onde tinha trabalhado durante 23 anos. Foi uma fase exigente, tanto a nível pessoal como profissional, que me obrigou a recomeçar numa área completamente diferente.

Outro momento muito difícil, em 2017, depois de vários anos a trabalhar por turnos, incluindo o turno da noite, sofri um enfarte do miocárdio. Foi um grande susto e uma fase complicada da minha vida.

Hoje olho para esses momentos como desafios que consegui ultrapassar. Ensinaram-me a adaptar-me às circunstâncias e a valorizar ainda mais a oportunidade de continuar a trabalhar e a aprender.

 

E qual foi o momento de que mais se orgulha ao longo do seu percurso nos SASUM?

Há muitos momentos de que me orgulho, mas há um que nunca esquecerei.

Numa conversa com a atual administradora dos SASUM, Dra. Alexandra Seixas, ela colocou-me a mão no ombro e disse-me simplesmente: "Homem, eu confio em si. Vamos trabalhar."

Aquelas palavras significaram muito para mim. Deram-me confiança e motivação para encarar esta nova etapa com mais responsabilidade, mais tranquilidade e ainda mais vontade de continuar a dar o meu melhor.

São gestos simples, mas que ficam para a vida. Para mim, foi uma demonstração de confiança que nunca esquecerei e que me deu ainda mais orgulho em continuar a fazer parte dos SASUM.

 

O que o continua a motivar diariamente, depois de quase 28 anos nos SASUM?

O que mais me motiva é continuar a aprender. Acho que nunca sabemos tudo e há sempre alguma coisa nova para descobrir, seja no trabalho que fazemos ou nas pessoas com quem nos cruzamos todos os dias.

Também gosto muito do contacto com as pessoas. Sempre gostei de conversar, de ouvir e de aprender com quem me rodeia. Essa interação faz parte daquilo que sou e continua a ser uma das maiores motivações para vir trabalhar todos os dias.

 

Sente que os SASUM passaram a fazer parte da sua identidade pessoal? De que forma?

Sem dúvida.

Depois de tantos anos, os SASUM passaram a fazer parte da minha identidade. Sempre que alguém me pergunta onde trabalho, respondo com orgulho que trabalho nos Serviços de Ação Social da Universidade do Minho.

É uma instituição onde cresci, tanto a nível profissional como pessoal, e que me proporcionou muitas oportunidades ao longo da vida. Sinto que faço parte desta casa e continuo a vestir a camisola dos SASUM com alegria e gosto.

 

Ao longo dos anos, viu muitos estudantes chegar e partir. O que mais o impressiona nas novas gerações?

Aquilo que mais noto é a forma como a comunicação mudou.

Quando comecei a trabalhar nas residências, a maior parte das conversas acontecia frente a frente. Os estudantes iam à receção, falavam connosco, partilhavam as suas preocupações e resolviam os problemas através do diálogo.

Hoje, grande parte da comunicação faz-se através do telemóvel ou do computador. É uma mudança natural dos tempos, mas, pessoalmente, continuo a valorizar muito o contacto direto entre as pessoas.

Acredito que uma conversa cara a cara continua a ser a melhor forma de criar relações de confiança e de compreender verdadeiramente quem está do outro lado.

 

Quando olha para trás e para todo o percurso realizado, o que sente?

Olho para trás com muita alegria e sinto que tive um percurso muito rico, tanto a nível profissional como pessoal.

Passei por momentos muito bons, outros mais difíceis, mas todos me ensinaram alguma coisa e ajudaram-me a crescer.

Se há algo que faria de forma diferente, é ter investido mais cedo na minha formação. Concluí o 12.º ano através das Novas Oportunidades, mas devia ter apostado ainda mais no conhecimento. Hoje acredito que aprender é algo que nunca deve terminar e, se pudesse voltar atrás, teria investido ainda mais nessa dimensão da minha vida.

 

Se pudesse guardar apenas uma memória destes quase 28 anos nos SASUM, qual escolheria?

É difícil escolher apenas uma, porque guardo muitas memórias destes anos.

Aquilo que mais me marcou foi ouvir, por várias vezes, estudantes dizerem-me, no final da sua estadia na residência: "Obrigado, Sr. Manuel. Foi como um pai para mim”. Essas palavras ficam para sempre e fazem-nos perceber que, muitas vezes, os pequenos gestos são aqueles que mais marcam a vida das pessoas.

Recordo também um momento muito especial que aconteceu há algum tempo. Encontrei uma antiga residente da Residência Lloyd Braga junto ao Restaurante Panorâmico. Assim que me viu, veio ter comigo e disse:

"Sr. Manuel, que alegria vê-lo! Lembra-se de quantas vezes eu ia à receção falar consigo e o senhor me dizia que um dia iria trabalhar no INL? Queria dizer-lhe que estou a trabalhar no INL."

Contou-me que aquelas palavras tinham sido um incentivo para nunca desistir e acreditar nas suas capacidades. Fiquei muito feliz e emocionado.

São momentos como estes que guardo para a vida. Fazem-me sentir que, para além das funções que desempenhei, consegui deixar uma marca positiva no percurso de alguns estudantes. É essa a memória que levo comigo destes quase 28 anos nos SASUM.

 

Perfil rápido:

Natural de Vila Nova de Famalicão, Manuel Oliveira é casado e tem 64 anos. Nos SASUM desde 1 de julho de 1998, é atualmente Operador de Armazém e Logística na Divisão de Aprovisionamento e Gestão de Stocks.

Idade: 64 anos (22 de janeiro de 1962)
Natural de: Telhado, Vila Nova de Famalicão
Nos SASUM desde: 1 de julho de 1998
Função atual: Operador de Armazém e Logística
23 anos como rececionista nas residências universitárias
Desde 2021 na Divisão de Aprovisionamento e Gestão de Stocks
Formação: 12.º ano (Programa Novas Oportunidades)
Estado civil: Casado

 

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Em poucas palavras …

Um momento marcante: A primeira viagem de avião, à Madeira, no ano em que celebrei 25 anos de casamento.

Um sonho por cumprir: Ter um apiário.

Um livro: A Romana, de Alberto Moravia.

Uma música: Rod Stewart, José Cid e a música dos anos 80.

Tempos livres: Jardinagem, cuidar do quintal e apicultura.

Um lugar especial: O mar.

Os SASUM para si: A minha segunda casa. Uma instituição que me deu muitas alegrias e onde ainda espero continuar por mais algum tempo.

 

Atualizado a 29-07-2026 10:00