Quatorze anos de inovação: a parceria UMinho–Bosch vista por António Pontes
Ana Marques ⠿ 30-07-2026 12:00
A parceria entre a Universidade do Minho e a Bosch é hoje uma das mais duradouras e relevantes colaborações entre academia e indústria em Portugal. Catorze anos depois da formalização da parceria, António Pontes, responsável da UMinho por esta colaboração, faz o balanço de um percurso marcado pela inovação, pela transferência de conhecimento, pela formação de talento e pelo desenvolvimento de soluções com impacto na indústria e na sociedade.
Como surgiu a parceria entre a Universidade do Minho e a Bosch e quais foram os objetivos definidos no início desta colaboração?
A parceria entre a Universidade do Minho e a Bosch Car Multimédia Portugal nasceu de uma visão comum: transformar a relação entre a academia e a indústria, criando um modelo de colaboração mais ambicioso, estruturado e orientado para resultados concretos.
O primeiro passo foi dado em outubro de 2011, numa reunião realizada na Reitoria da Universidade do Minho, onde ficou assumida a vontade de desenvolver, em conjunto, algo verdadeiramente inovador em Portugal. O objetivo era claro: aproximar o conhecimento científico da realidade industrial e gerar desenvolvimento estratégico com relevância nacional e internacional.
Em 2012 foi assinado o protocolo de cooperação entre as duas instituições, assente em quatro grandes áreas tecnológicas: eletrónica e instrumentação, tecnologias de informação, engenharia mecânica e engenharia de materiais. Em 2013 foi submetido e aprovado o primeiro grande projeto de I&DT+I da parceria, o HMIExcel — Human Machine Interface Excellence —, com um investimento de cerca de 19 milhões de euros.
Este projeto foi o ponto de partida para uma colaboração de grande escala, que viria a afirmar-se como uma das mais ambiciosas parcerias Universidade-Indústria em Portugal e uma referência no contexto europeu.
Quatorze anos depois, que balanço faz da evolução desta parceria?
O balanço é extremamente positivo. Ao longo de 14 anos, esta parceria evoluiu de uma aposta estratégica para um verdadeiro modelo de excelência na colaboração entre universidade e indústria.
Mais do que uma sucessão de projetos, esta colaboração permitiu criar uma cultura de trabalho conjunto, baseada na confiança, na complementaridade de competências e na orientação para resultados.
A cada novo programa de inovação, foi possível aprofundar conhecimento, desenvolver soluções tecnológicas avançadas e reforçar a capacidade científica e industrial instalada na região.
Esta evolução demonstra que a colaboração entre a UMinho e a Bosch não se limitou a responder a desafios pontuais. Pelo contrário, criou um ecossistema de inovação robusto, capaz de gerar impacto científico, tecnológico, económico e social, com relevância para a região, para o país e para o posicionamento internacional das duas instituições.
O que distingue esta colaboração de outras parcerias entre universidades e empresas existentes em Portugal?
O que distingue esta parceria é a sua escala, continuidade e profundidade. Não se trata apenas de uma colaboração entre uma universidade e uma empresa, mas de um modelo de trabalho conjunto em que as competências de cada instituição são verdadeiramente integradas.
A Bosch traz para a parceria o seu conhecimento industrial, o roadmap tecnológico, as especificações técnicas e a experiência no desenvolvimento de soluções para o setor automóvel. A Universidade do Minho acrescenta conhecimento científico, multidisciplinaridade, capacidade laboratorial, experiência em investigação e competência na gestão de projetos complexos.
Esta combinação permite transformar investigação em soluções com aplicação real na indústria. A parceria tem mostrado que é possível alinhar o conhecimento académico com desafios concretos do mercado, sem comprometer a qualidade científica nem a ambição tecnológica.
É precisamente esta capacidade de unir ciência, engenharia, inovação e aplicação industrial que faz da parceria UMinho-Bosch um caso singular no panorama nacional.
Quais considera terem sido os principais resultados alcançados ao longo destes anos, quer do ponto de vista científico, quer tecnológico e económico?
Os resultados alcançados são expressivos e demonstram a dimensão desta parceria. Desde o primeiro programa, o HMIExcel, foi possível desenvolver soluções avançadas na área da interação homem-máquina, com impacto direto no setor automóvel. Este projeto, desenvolvido entre 2013 e 2015, envolveu 205 colaboradores, representou um investimento de 19,2 milhões de euros e resultou em 12 patentes, 162 entregáveis e 32 publicações científicas.
Na sequência desse sucesso, avançou o programa Innovative Car HMI, que integrou os projetos INNOVCAR e iFACTORY. Entre 2015 e 2018, estes projetos representaram um investimento aproximado de 54,7 milhões de euros, envolveram 400 colaboradores e permitiram gerar 24 patentes, 417 entregáveis e 109 publicações científicas.
Posteriormente, foram desenvolvidos os programas Sensible Car, Easy Ride e Factory of Future, com um investimento de 90,8 milhões de euros e a participação de 516 colaboradores. Estes programas resultaram em 57 patentes, 719 entregáveis e 134 publicações científicas.
No conjunto, estes resultados evidenciam o impacto científico e tecnológico da parceria, mas também a sua relevância económica. Foi criado conhecimento crítico, reforçada a infraestrutura científica e tecnológica nacional, promovido emprego qualificado e consolidada uma base de inovação com efeitos muito além das duas instituições envolvidas.
Projetos como o nExt Sense e o Connected Manufacturing representam novas etapas desta colaboração. Que desafios procuram responder e que impacto poderão ter na indústria?
O nExt Sense e o Connected Manufacturing representam uma nova fase da parceria, orientada para alguns dos desafios mais exigentes da mobilidade e da indústria do futuro.
O nExt Sense centra-se no desenvolvimento de uma nova geração de sistemas de sensores automóveis, essenciais para veículos mais seguros, conectados e preparados para a condução autónoma. O projeto trabalha áreas como microssistemas para sensores, confiabilidade, segurança, posicionamento, conectividade e inteligência artificial aplicada à perceção do ambiente envolvente.
Desde 2021, as equipas da Universidade do Minho e da Bosch têm desenvolvido tecnologias que permitem ao veículo detetar o ambiente, interpretar informação e apoiar a tomada de decisões de forma mais segura e eficiente.
Este projeto teve um investimento aproximado de 15,3 milhões de euros e permitiu criar pelo menos 45 novos postos de trabalho.
O Connected Manufacturing, por sua vez, responde aos desafios da indústria inteligente. O projeto desenvolve soluções em áreas como conectividade 5G, controlo de qualidade, processos de fabrico, logística e gestão inteligente da informação. O grande objetivo é garantir que os dados certos chegam às pessoas certas, no momento certo, permitindo decisões mais rápidas, consistentes e eficazes.
Através da recolha e análise de informação, com recurso a técnicas de inteligência artificial, o projeto contribui para melhorar a qualidade do produto, reduzir falhas, diminuir desperdícios e aumentar a eficiência na gestão de stocks. Com um investimento aproximado de 10,6 milhões de euros, resultou em mais de 45 publicações científicas, 7 patentes e pelo menos 49 novos postos de trabalho.
De que forma esta parceria tem contribuído para a afirmação da Escola de Engenharia e da Universidade do Minho no panorama nacional e internacional?
Esta parceria tem sido decisiva para afirmar a Escola de Engenharia da Universidade do Minho como um parceiro estratégico em projetos de inovação de grande escala entre universidade e indústria.
Ao longo dos últimos anos, permitiu reforçar a capacidade científica, aumentar o número de investigadores envolvidos, desenvolver novas competências e consolidar infraestruturas laboratoriais de apoio à investigação e ao desenvolvimento tecnológico. A criação e valorização de espaços como o DONE Lab, outros laboratórios no Campus de Azurém e o espaço Bosch são exemplos concretos desse impacto.
Mais do que reforçar recursos, a parceria permitiu elevar a qualidade da investigação realizada na UMinho, aproximando-a dos grandes desafios tecnológicos da indústria. Esta ligação direta entre investigação, desenvolvimento e aplicação prática contribuiu para projetar a Escola de Engenharia e a Universidade do Minho no panorama nacional e internacional.
A parceria demonstra ainda que a coprodução de conhecimento entre universidades e empresas pode gerar inovação, emprego qualificado, emprego científico e desenvolvimento económico sustentado.
Qual tem sido o papel dos estudantes da Escola de Engenharia nestes projetos?
Os estudantes da Escola de Engenharia têm tido um papel muito relevante nesta parceria. Ao longo dos anos, muitos participaram através de dissertações de mestrado, doutoramentos, estágios e integração em equipas de investigação ligadas aos projetos desenvolvidos com a Bosch.
Este contacto com desafios reais da indústria permite aos estudantes aplicar conhecimento científico em contextos concretos, trabalhar em equipas multidisciplinares e desenvolver competências técnicas e profissionais altamente valorizadas.
A parceria tornou-se, por isso, uma oportunidade diferenciadora na formação dos futuros engenheiros, permitindo-lhes compreender melhor as exigências do mercado e preparar-se para carreiras em ambientes tecnológicos avançados.
Que oportunidades têm surgido para os estudantes ao nível de estágios, dissertações, investigação e integração profissional?
A parceria tem criado oportunidades muito relevantes em diferentes etapas do percurso académico. Os estudantes têm podido desenvolver dissertações, participar em projetos de investigação aplicada, realizar estágios e contactar diretamente com equipas industriais e científicas de elevada exigência.
Uma das iniciativas mais relevantes foi a criação do Programa Doutoral em Sistemas Avançados de Engenharia para a Indústria. Este programa demonstra como é possível formar doutorados em temas cientificamente sólidos e, ao mesmo tempo, diretamente alinhados com necessidades reais da indústria.
Estas oportunidades contribuem para uma formação mais robusta, mais aplicada e mais próxima da realidade profissional, aumentando a empregabilidade e a capacidade de resposta dos estudantes aos desafios tecnológicos atuais.
Ao longo destes anos, centenas de estudantes passaram por projetos associados à parceria Bosch–UMinho. Que impacto considera que esta colaboração tem tido na formação dos futuros engenheiros e na sua preparação para o mercado de trabalho?
O impacto tem sido muito significativo. A participação em projetos desta dimensão permite aos estudantes desenvolver competências que dificilmente seriam adquiridas apenas em contexto académico tradicional.
Os futuros engenheiros contactam com problemas reais, tecnologias emergentes, prazos exigentes, equipas multidisciplinares e metodologias de trabalho próximas da indústria. Esta experiência torna a sua formação mais completa e prepara-os melhor para um mercado de trabalho competitivo, global e em rápida transformação.
A parceria também tem impacto nos docentes e investigadores, que reforçam competências em áreas específicas e acompanham de perto o roadmap tecnológico da mobilidade. Esse conhecimento é depois incorporado no ensino, enriquecendo a formação dos estudantes com exemplos concretos e atuais da realidade industrial.
Como se processa, na prática, a transferência de conhecimento entre a Universidade e a Bosch?
A transferência de conhecimento acontece de forma estruturada, através de equipas conjuntas, definição partilhada de objetivos, projetos multidisciplinares e aplicação direta de conhecimento científico a desafios industriais.
O modelo assenta num alinhamento claro entre as necessidades tecnológicas da Bosch e as competências científicas da Universidade do Minho. A partir daí, são mobilizados investigadores, docentes, estudantes, laboratórios e centros de investigação capazes de responder aos desafios identificados.
Na prática, esta transferência não é apenas teórica. O conhecimento é testado, desenvolvido, aplicado e convertido em soluções, processos, produtos, publicações, patentes e competências. É este ciclo completo, da investigação à aplicação, que dá força ao modelo.
Que impacto teve esta colaboração na criação de infraestruturas, laboratórios e competências científicas na região?
A colaboração teve um impacto muito relevante no reforço das infraestruturas científicas e tecnológicas da região. Permitiu criar e modernizar laboratórios, reforçar equipamentos, atrair investigadores e desenvolver competências em áreas tecnológicas estratégicas.
Estes investimentos beneficiam diretamente a parceria, mas o seu impacto é mais amplo. As infraestruturas e competências criadas ficam ao serviço da Universidade, dos centros de investigação, de novos projetos e de outras empresas que podem beneficiar deste ecossistema.
A região passa, assim, a dispor de maior capacidade para desenvolver investigação aplicada, captar talento, criar emprego qualificado e responder a desafios industriais complexos.
A inovação depende cada vez mais da colaboração entre academia e indústria. Que lições podem outras instituições retirar desta experiência?
A principal lição é que a colaboração entre academia e indústria pode gerar resultados muito relevantes quando existe visão estratégica, confiança mútua, governação clara e compromisso de longo prazo.
Esta parceria mostra que a inovação não nasce apenas da proximidade entre instituições, mas da capacidade de alinhar objetivos, combinar competências e transformar conhecimento em impacto. A Universidade contribui com ciência, pensamento crítico e multidisciplinaridade; a indústria acrescenta foco, escala, aplicação e exigência.
Outra lição importante é que projetos de I&DT multidisciplinares podem criar valor muito para além dos resultados imediatos. Geram conhecimento, qualificam pessoas, reforçam infraestruturas, aumentam a capacidade de investigação e contribuem para o desenvolvimento económico da região e do país.
O sucesso desta parceria assenta também nas pessoas: na competência dos colaboradores da Bosch, na dedicação dos investigadores da UMinho, no alinhamento entre as lideranças e no trabalho conjunto das equipas. Sem essa confiança e cumplicidade, resultados desta dimensão dificilmente seriam possíveis.
Muitos dos estudantes envolvidos nestes projetos beneficiam, ao longo do seu percurso académico, de apoios de ação social. Considera que a existência de condições que promovam a igualdade de oportunidades é também um fator importante para permitir que o talento e o mérito possam chegar a projetos desta dimensão?
A igualdade de oportunidades é uma condição essencial para que o talento possa emergir, desenvolver-se e chegar a projetos desta dimensão. O mérito só pode ser plenamente valorizado quando existem condições para que todos os estudantes tenham acesso à formação, à investigação e a experiências qualificantes.
Projetos como os desenvolvidos no âmbito da parceria Bosch-UMinho precisam de talento diverso, motivado e bem preparado, sendo fundamental que os estudantes encontrem condições que lhes permitam concentrar-se no seu percurso académico e científico, independentemente do seu contexto socioeconómico.
Os apoios de ação social têm, por isso, um papel estratégico. Não são apenas instrumentos de apoio individual, mas são também mecanismos de desenvolvimento coletivo, porque permitem que mais estudantes participem em projetos com impacto para a sociedade, a economia e o país.
Quais são atualmente as áreas tecnológicas mais promissoras no âmbito desta parceria?
A área automóvel continua a ser um dos grandes motores da inovação, impulsionando desenvolvimentos em domínios como sensores, software, robótica, automação, novos materiais, compósitos e sistemas inteligentes.
Atualmente, as áreas mais promissoras estão associadas ao automóvel conectado, à condução autónoma, ao veículo elétrico e ao conceito de mobilidade partilhada. Estes domínios exigem soluções tecnológicas cada vez mais integradas, seguras e eficientes.
Nos próximos anos, ganharão também maior relevância as soluções de entretenimento personalizado a bordo, assistentes por voz apoiados por inteligência artificial, ecrãs avançados, realidade aumentada, monitorização do condutor e sistemas capazes de melhorar a segurança, o conforto e a experiência dentro do veículo.
Que desafios e oportunidades antevê para os próximos anos?
Os próximos anos serão marcados por desafios exigentes, mas também por oportunidades muito relevantes. A condução autónoma, a eletrificação, a conectividade entre veículos, peões e infraestruturas urbanas, bem como o desenvolvimento de sistemas controlados por software, serão áreas centrais de evolução.
Para a parceria UMinho-Bosch, o desafio será continuar a antecipar estas tendências e a transformar conhecimento científico em inovação com aplicação industrial. A oportunidade está precisamente aí: manter a capacidade de criar soluções relevantes, formar talento qualificado e reforçar o papel da região como polo de conhecimento e tecnologia.
O que representa esta parceria para a missão da Escola de Engenharia da Universidade do Minho?
Esta parceria representa uma concretização muito clara da missão da Escola de Engenharia da Universidade do Minho. Mostra que a Escola é capaz de produzir conhecimento científico de qualidade, formar recursos humanos altamente qualificados e contribuir diretamente para o desenvolvimento tecnológico, económico e social.
Ao aproximar investigação, ensino e indústria, a parceria reforça o papel da Escola de Engenharia como agente de inovação e desenvolvimento.
Permite formar estudantes mais preparados, apoiar investigadores, criar emprego científico, desenvolver infraestruturas e responder a desafios concretos da sociedade e da economia.
No fundo, esta parceria demonstra que a engenharia tem um papel decisivo na construção do futuro. E mostra que, quando a universidade e a indústria trabalham de forma alinhada, com ambição e confiança, é possível gerar conhecimento com impacto real.
Atualizado a 29-07-2026 12:00
