UMinho quer levar a ciência ao encontro das pessoas
Ana Marques ⠿ 22-10-2026 09:00
A primeira edição do UMinho Open Science Festival promoveu o debate sobre a participação cidadã na investigação, a partilha de conhecimento e a necessidade de repensar a avaliação científica.
A Universidade do Minho quer reforçar a abertura da investigação à sociedade, promovendo uma ciência mais transparente, colaborativa e próxima das comunidades. Este foi um dos principais desafios em debate na primeira edição do UMinho Open Science Festival 2026, que decorreu a 20 de outubro, no campus de Gualtar, em Braga, reunindo membros da comunidade académica e especialistas nacionais e internacionais.
Na sessão de abertura, Carlos Videira, pró-reitor para a Participação Universitária e Ligação ao Território, defendeu que a Ciência Aberta implica repensar não apenas a forma como o conhecimento é partilhado, mas também quem participa na sua construção. Num contexto marcado pela crescente presença da inteligência artificial, considerou essencial que a Universidade continue a fazer perguntas e procure perceber que vozes permanecem afastadas do meio académico.
O responsável destacou a importância de aproximar a participação universitária, a investigação e o território, sublinhando que essa relação deve ser construída com disponibilidade para ouvir e aprender com a sociedade. "A participação ganha sentido quando as pessoas sentem que podem contribuir para alguma coisa que importa", afirmou.
Para Carlos Videira, esta abertura pode enriquecer a própria investigação, trazendo novas perspetivas e questões. "A ligação ao território ganha profundidade quando construímos relações em que, como instituição, também estamos disponíveis para aprender. E a investigação pode encontrar nessas relações novas perguntas, novos interlocutores e novas possibilidades", defendeu.
A Ciência Cidadã assume, neste contexto, um papel relevante, ao envolver os cidadãos no próprio processo científico, desde a definição das questões de investigação à interpretação dos resultados. Mais do que criar oportunidades de participação, trata-se de garantir que os contributos são escutados, valorizados e efetivamente integrados no trabalho desenvolvido.
Uma política institucional para uma ciência mais aberta
António Salgado, vice-reitor para a Investigação e Política Científica, destacou o percurso pioneiro da Universidade do Minho nesta área. A criação do RepositóriUM, em 2003, marcou uma etapa importante na promoção do acesso aberto às publicações científicas, um trabalho que se foi alargando a outras dimensões da investigação.
Em junho de 2025, a UMinho aprovou uma nova Política de Ciência Aberta, que abrange, entre outras áreas, as publicações, os dados de investigação, os recursos educativos, a Ciência Cidadã, o código aberto e a inovação aberta. Em maio de 2026, foi também criado o Observatório da Ciência Aberta, destinado a acompanhar a implementação da política, identificar necessidades e contribuir para a definição de respostas e serviços de apoio à comunidade académica.
Para o vice-reitor, a abertura da ciência deve ser acompanhada por condições que permitam aos investigadores concretizar estas práticas, desde o apoio à gestão e partilha de dados até à formação e ao acompanhamento especializado. Importa, igualmente, repensar os modelos de avaliação científica, reconhecendo a diversidade dos contributos académicos e evitando que a qualidade da investigação seja medida apenas pelo número de publicações ou pelo impacto das revistas.
"A Ciência Aberta não deve ser vista apenas como uma obrigação associada às agências de financiamento ou como um conjunto de requisitos administrativos", alertou, defendendo uma abordagem que valorize os benefícios efetivos para a investigação e para a sociedade.
Um percurso com mais de duas décadas
O diretor da Unidade de Serviços de Documentação e Bibliotecas da UMinho, Eloy Rodrigues, recordou que a Ciência Aberta não é um tema recente na instituição. O trabalho começou em 2003, com a criação do RepositóriUM, e evoluiu progressivamente para outras áreas, acompanhando a transformação das práticas científicas.
A intervenção da Unidade de Serviços de Documentação e Bibliotecas estrutura-se em quatro eixos: serviços e infraestruturas, formação e divulgação, promoção de políticas e práticas de Ciência Aberta e cooperação internacional. Um trabalho que envolve também o apoio especializado à comunidade académica e a criação de condições para que a partilha do conhecimento seja integrada no quotidiano da investigação.
Da participação cidadã à avaliação da ciência
Ao longo do dia, o programa incluiu uma conferência de Josep Perelló, do Instituto de Sistemas Complexos da Universidade de Barcelona, dedicada à Ciência Aberta e à Ciência Cidadã enquanto compromisso social com as comunidades e a sociedade civil. Houve ainda apresentações de práticas desenvolvidas na UMinho e demonstrações de serviços e ferramentas de apoio à investigação.
Durante a tarde, os participantes debateram a participação das pessoas na produção de conhecimento e o impacto da ciência nas comunidades, num workshop que contou com representantes da Rede Portuguesa de Ciência Cidadã, da Fundação Francisco Manuel dos Santos e do Campus Neurológico de Braga. Em paralelo, o workshop Re.Data abordou a publicação e gestão de dados de investigação segundo os princípios FAIR — dados fáceis de encontrar, acessíveis, interoperáveis e reutilizáveis.
O encontro incluiu ainda a apresentação do modelo norueguês NOR-CAM, por Herman Strøm, das Universities Norway e da University of South-Eastern Norway, centrado na reforma dos sistemas de avaliação da investigação.
Mais do que a disponibilização de publicações e dados, a Ciência Aberta envolve uma mudança nas formas de produzir, avaliar e comunicar conhecimento. Como sublinhou António Salgado, "quando falamos de Ciência Aberta, estamos também a falar de melhor ciência", uma ciência que reforça a transparência, a reprodutibilidade e a colaboração, sem perder de vista a proteção de dados, a confidencialidade e outras limitações legítimas à abertura.
O desafio passa, assim, por construir uma Universidade mais permeável à sociedade, capaz de integrar diferentes experiências e perspetivas na investigação e de fazer chegar o conhecimento a quem dele pode beneficiar.
Atualizado a 22-10-2026 09:00
