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Aluno da UMinho de volta a casa depois de Viagem à volta do Mundo

Com partida a 20 de Julho de 2004 e chegada 5 de Setembro de 2005, realizou o grande sonho que o perseguia à muito, fez a viagem de longa duração que muitos de nós sonhamos conseguir fazer um dia.

 

Em entrevista com este ousado jovem de 33 anos, nascido no Porto, bracarense adoptado desde os tempos académicos, podemos descobrir que embora com o curso de Sistemas de Informática, a sua mais recente paixão é a fotografia, o jornalismo e a escrita que muito praticou durante esta viagem.

 

“Um dia despeço-me e dou uma volta ao mundo”, disse várias vezes, até que um dia depois de uma prolongada hibernação profissional numa empresa e posteriormente ter ficado desempregado, esta ideia ganhou ainda maior forma e a 20 de Julho de 2004 depois de tudo planeado,  o destino foi Moscovo.

 

         

 

Entrevista:

 

Dicas- Como surgiu a ideia de fazeres esta viagem?

Era um sonho já muito antigo fazer uma viagem de longa duração, algo que me perseguia, não sei bem a altura em que surgiu, apenas que ganhou muita mais força depois de algum tempo a trabalhar numa empresa onde passava os dias preso, e depois do desemprego ser uma realidade na minha vida. Com a confluência destas e outras condições pensei ”é altura de me aventurar” e daí a preparar tudo para a viagem foi um pequeno passo. Experiências passadas levaram-me a vários países mas nada como uma longa viagem para nos proporcionar o conhecimento do mundo, que pequenas viagens de férias nunca nos dariam a possibilidade de conhecer ou levaria uma eternidade. A base foi o sonho ”um sonho tem a força de transformar uma ideia em algo imperativo”, ao que se aliou a paixão pela fotografia e jornalismo, que depois de um acordo com o jornal ”O Público”, em que acordei enviar para a redacção do Público fotografias e textos elaborados com a matéria-prima proporcionada por cada semana “na estrada”, reportagens que o jornal faria publicar, todos os sábados, no suplemento de viagens Fugas. Por isso a hora certa era esta, a oportunidade para as pôr em prática o meu sonho.

 

Dicas- Qual o objectivo com esta viagem?

Principalmente com esta viagem quis abrir horizontes, sentia a necessidade de explorar o mundo, descobrir novas realidades, contactar com culturas diferentes, conhecer novas gentes e lugares inimagináveis, necessitava de dar asas à liberdade, viver fora da nossa realidade. Mas o que realmente me levou a esta viagem foi o pensar que um dia mais tarde me iria arrepender de não a ter feito e seria difícil demais conviver com o ensamento “quem me dera ter feito aquela viagem…”.

 

Dicas- O que podemos entender por viagem à volta do mundo?

Claro que não significa percorrer todos os países, mas reflecte o facto de irmos sempre no sentido Este, fazemos o percurso à nossa maneira, tomamos a opção de visitar os países que mais nos cativam de alguma maneira, mas sempre com o objectivo de chegarmos ao ponto de partida.

 

Dicas- Porquê a opção por este e não outro percurso?

O percurso que fiz não foi o que estava delineado inicialmente. Fiz um plano de viagem, um trajecto mediante estudos de experiências de outros viajantes. Quando saí daqui a primeira paragem foi Moscovo, depois ao longo da viagem mudei muitas vezes de planos. Umas vezes não ficava tanto tempo como previsto porque me cansava dos locais, outras vezes encontrava pessoas que me falavam dos países por onde tinham passado e ficava curioso e então decidia lá ir, por várias vezes mudei o trajecto previsto. È mesmo a liberdade de decidirmos as coisas na hora que torna estas viagens fantásticas, o que não acontece nas viagens de férias que vamos com um determinado destino. ”A liberdade de se ir para onde queremos não tem preço”.

 

Dicas- Como foram os 431 dias de viagem?

Toda a viagem foi extraordinária, vivências únicas e maravilhosas, mas também dias maus. Pode com esta viagem concluir que quanto mais viajo, melhor vejo o quão pouco conhecemos do mundo, tudo foi fantástico demais, uma experiência que me tornou diferente pelo menos interiormente. Cada dia que passava mais tinha a noção do quanto havia para conhecer, o mundo é uma ”caixa” de surpresas.

 

         

 

Dicas- Quais os locais que mais gostaste?

Conheci lugares espectaculares, mas aqueles de que me lembro com mais admiração, que relembro com mais estupefacção são a Mongólia, Vietname e Bolívia. Não porque sejam mais bonitos, mas talvez pela diferença, somos atraídos pela diferença, e nestes países tudo é muito diferente da nossa realidade, foi o que mais me fascinou. As experiências que vivi, as pessoas nestes países, tudo inesquecível. Passei por cidades muito bonitas e desenvolvidas, mas já estamos habituados e já não nos fascinam. São os locais que aliam as paisagens e gentes diferentes, a beleza dos lugares, às minorias étnicas que depois recordamos com mais carinho.

 

Dicas- Esta viagem foi mesmo ”Viagem Solitária”?

Não. Numa viagem destas tens os teus momentos de solidão, mas também encontras muita companhia durante o percurso. Eu estive a maior parte do tempo só, por duas vezes a minha esposa foi ter comigo ao Sudeste Asiático e América do Sul. Mas no caminho acabamos sempre por nos juntar a pessoas que também andam nas mesmas caminhadas e por vezes ficamos juntos por dias, semanas e até meses até que cada um toma outro rumo.

 

Dicas- Não tiveste receio de ir sozinho?

Não. As pessoas na minha opinião são naturalmente boas, apenas existem algumas condicionantes que as podem tornar más. Mas foi só pois sozinho conhecem-se mais pessoas, não estamos agarrados a ninguém e por isso temos mais liberdade e estamos mais abertos a entrar em contacto com as pessoas e às pessoas se aproximarem de nós. Claro que temos momentos em que nos apetecia ter alguém com quem falar, com quem ver um pôr-do-sol, mas tudo isso se ultrapassa com as belezas e gentes que encontramos.

 

Dicas- Quais foram os custos desta viagem?

O principal custo foi o equipamento digital que comprei antes de ir, computador portátil, máquina e lentes para fotografia, etc, depois as passagens aéreas que tive de comprar durante a viagem, principalmente a da Austrália para a América do Sul que teve um preço exorbitante.

O que posso dizer é que nem eu sei bem ao certo quanto gastei, mas isso também não importa muito as pessoas terem conhecimento, pois cada pessoa que faz uma viagem deste tipo pode ter custos muito, muito diferentes. Tudo depende dos países aonde vamos, cada país tem custos de vida muito diferentes, se formos para países muito desenvolvidos os custos são brutais. As condicionantes para os custos de uma viagem destas são muitas, depende da velocidade a que viajamos, pois se andarmos sempre a saltar de lugar para lugar ou de país para país gasta-se muito mais em transportes, estadias, etc, mas se ficarmos bastante tempo num lugar consegue-se evitar bastantes gastos. Depende também dos locais que escolhes para comer e dormir, se vais para um hotel é um preço se ficares numa estadia simples os custos são muito inferiores. Cada dólar que consigas poupar por dia ao fim de uma viagem de 431 dias basta multiplicar o que conseguiste economizar.

O que fiz inicialmente foi atribuir um custo por dia a cada país onde iria ficar baseando-me em estudos, assim fiz a estatística de quanto me iria fazer falta para poder realizar este sonho.

 

”Para fazer uma viagem destas não é preciso ser muito aventureiro, é preciso é ter a certeza do que se quer. Na vida só temos é que fazer pelas coisas”.

 

 

         

 

Dicas- Sabemos que pertences à Azeituna, existe alguma relação entre estas duas paixões (Viagens e o grupo cultural)?

A única relação que vejo é que enquanto membro da Azeituna tive a oportunidade de fazer algumas viagens com o grupo, o que serviu para aguçar o gosto pelas viagens. Tanto as viagens como a Azeituna me proporcionaram experiências inesquecíveis e muito gratificantes.

 

Dicas- Em relação ao teu futuro, quais são os teus projectos?

Em primeiro lugar quero completar o projecto desta viagem, quero aproveitar todo o espólio fotográfico que tenho, todas as histórias registadas em texto e fazer uma exposição, assim como a edição de um livro de fotografias e edição das crónicas. Quero aproveitar para chegar às pessoas de outra forma que não através da Internet ou do jornal como até agora, mas rentabilizar também o investimento feito. Estou aberto a todas as propostas e sugestões.

Terminado isto, tenho que fazer uma retrospectiva à minha vida e ver o meu rumo a nível profissional. Para já ainda não estou parado, tenho o tempo até bastante ocupado, cheguei à pouco e ainda ando a rever lugares e amigos, assim como fazer as memórias das viagens para estas três semanas do ”Fugas”, o que é um pouco complexo.

 

Dicas- De volta a casa depois de 14 meses de viagem, consideras que te tornas-te uma pessoa diferente?

Viajar é naturalmente enriquecedor, agora sinto que relativizo muito mais a importância das coisas, sinto que tenho uma mentalidade diferente, sinto-me uma pessoa muito mais paciente, rica no sentido das experiências, com um conhecimento muito mais alargado, de espírito muito mais aberto, sinto que me tornei uma pessoa melhor interiormente e aprendi a dar muito mais valor ao que tenho.

 

 

Uma das experiências mais marcantes deste português que nos faz lembrar o povo grandioso que fomos em que partimos à descoberta do mundo, foi o Tsunami, ao qual ninguém ficou indiferente e ele muito menos que esteve lá presente.

Andando por ali perto, foi contactado pelo Público para ir fazer a cobertura.

”Emocionalmente foi muito difícil, estava a trabalhar como repórter fotográfico, enquanto filmava era como se estivesse distante, mas quando tirava a câmara para o lado e via apenas a morte à minha frente só conseguia chorar, foi a experiência mais marcante da viagem e da minha vida” algo que nunca esquecerá, mas foi mais uma experiência das muitas na sua viagem.

 

 

 

Ana Marques

 

 

 

 

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